Créditos de imagem: Greg Dunn.

Existem algumas questões prementes sobre vacinas de COVID e esclerose múltipla. Eu posso tomar vacina? Quais são seguras e quais são eficientes? Qual é o tempo e a amplitude da imunidade das vacinas de COVID em esclerose múltipla? Um artigo nosso de 2021 responde estas perguntas.

Segurança é a chance de complicações. Eficácia é a proteção contra COVID. As vacinas são aprovadas para uso quando passam por testes robustos de segurança e eficácia. O principal efeito da vacinação é o controle da pandemia. A proteção individual vem muito mais pelo controle da pandemia do que pela vacinação individual. Infelizmente 1/3 dos brasileiros não entende que se não há virus circulando, não há risco de doença. Enquanto não houver circulação de vírus, ou seja, enquanto a vacinação estiver sendo eficiente.

O resumo em 2022 é que as pessoas se vacinam quando são chamados pelas suas secretarias de saúde, e podem aceitar o que lhes é oferecido, inclusive em situações especiais, como grávidas, crianças e imunossuprimidos. O fato de existirem vacinas diferentes é positivo. Nenhuma da vacinas é viva, ou mexe com a genética da pessoa. A Coronavac foi pouco avaliada na Europa e EUA, mas é segura e razoavelmente eficiente. A Oxford, britânica, usa IFA – o princípio ativo – chinês. A Moderna, que não chegou ao Brasil, é como a Pfizer, talvez as mais poderosas, mas precisam ser armazenadas em freezers. A russa Sputnik V não chegou a nós. A Janssen parece ser ser top de linha, mas a dose única talvez só tenha sido válida para a primeira dose.

Desde 2021, conseguiu ser vacinado quem quis, e os não vacinados são estranhos no ninho. Todos achamos que as vacinas da Pfizer, Moderna e Janssen se tornariam disponíveis em clínicas privadas. Isso não ocorreu e não deve ocorrer no futuro próximo. As vacinas existentes conferem imunidade parcial durante vários meses, e não conferem proteção pessoal absoluta. A maior vantagem é coletiva, diminuir a transmissão comunitária do coronavírus, controlar a pandemia, mesmo que com vacinações múltiplas e repetidas. A outra vantagem é diminuir os casos graves, as hospitalizações, internamentos em UTI e mortes.

Desde então existe mais experiência. No caso de doenças imunológicas e esclerose múltipla, as pessoas precisam entender uma ou duas coisas a mais . Não existe problema de segurança. As vacinas não fazem nenhum mal aos portadores de esclerose múltipla, tratados ou não. O problema é eficácia: em muitos casos as vacinas de COVID em esclerose múltipla não produzem proteção contra coronavirus. As vacinas induzem duas respotas immunológicas diferentes nas pessoas. A imunidade humoral tem a ver com os linfócitos B, é mediada por anticorpos. A imunidade celular é mediata por linfócitos T. Os remédios de esclerose múltipla e muitas outras doenças imunológicas funcionam exatamente nestas duas formas de imunidade. Os portadores de esclerose múltipla, tratados com várias medicações, tem resposta humoral e celular detectável após as vacinas. Ou seja, eles e elas podem seguir o esquema vacinal usual. Porém, as vacinas de COVID em esclerose múltipla tem eficácia que varia com o tratamento utilizado.

Tortorella et al Neurology 2022; 98:e541-e554

Graves and Killestein Neurology 2022; 98;177-178

Todos os portadores de esclerose múltipla tratados com os medicamentos biológicos e com os imunossupressores orais continuados tem resposta celular diminuída. A imunidade dos linfócitos T fica prejudicada em todos, incluindo os pacientes que usam cladribina e interferons.  Portanto, todos terão uma proteção menor pelas vacinas. Os que são tratados com rituximab e ocrelizumab tem resposta de anticorpos, a imunidade humoral, diminuída. Nestes a resposta às vacinas é ainda menor. Os que usam fingolimod tem resposta de anticorpos e celular diminuídas. A menor resposta de imunidade celular de todos os pesquisados nos dois artigos acima ocorre no grupo tratado com fingolimod, no qual 14% tinham resposta detectável. Ou seja, o fingolimod é o que mais reduz a proteção das vacinas de COVID em esclerose múltipla.

A exceção são as pulsoterapias de metil-prednisolona e ciclofosfamida. Se forem espaçadas em 15 dias com a vacinação, não devem conferir nenhuma redução de efeito. Especialmente após ciclofosfamida isoladamente, a imunidade pode até ficar melhor, é este o resultado dos tratamentos de células tronco autólogas hematopoiéticas, como no caso da ciclofosdamida. As sociedades italiana  e europeia de neurologia publicaram recomendações para as pessoas que usam pulsos de ocrelizumab, que são ainda mais complicados que o fingolimod.

Dr Paulo Bittencourt

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