Uma conspiração levou a um concurso vestibular corrupto na Universidade Federal do Paraná em 1971. Os fatos estão nos jornais da época, e dezenas, senão centenas de testemunhas estão vivas. Exatamente no dia 13 de janeiro de 1971 a UFPR soltou os resultados do vestibular, que havia sido realizado na semana anterior, entre 4 e 8 de janeiro. Eram os tempos da ditadura, e ninguém questionava nada, muito menos um vestibular corrupto no Paraná, bastião da honestidade católica do sul do Brasil. O reitor da UFPR era Flávio Suplicy de Lacerda, que havia sido ministro da educação do governo militar de Castello Branco. Articulador da reforma universitária de 1968, que iria ser implantada na UFPR em 1972, era membro eminente da elite paranaense, nascido na Lapa, fundador do CREA-PR e cunhado de David Carneiro. Foi Flávio Suplicy de Lacerda que permitiu que 182 candidatos fossem aprovados para as 160 vagas do concurso. O diretor do Setor de Ciências da Saúde era Ernani Simas Alves, outro membro inatacável da elite paranaense, militar da reserva e ligado aos órgãos de segurança da ditadura. Nos anos seguintes, outros 20 alunos foram agregados a esta última turma antes da reforma ser implantada. Terminamos o curso em 195 médicos.

Quando terminaram as provas do vestibular de Medicina no dia 8 daquele janeiro, um grupo de colegas de cursinho aceitou meu convite e fomos esperar o resultado brincando na Praia Mansa de Caiobá. Existem fotos. Ficamos lá até que meu pai, Dr Paulo Bittencourt, obstetra e ginecologista, chegou com os resultados. Minha mãe e irmãos ficaram em Caiobá, e nós, os vestibulandos, subimos para o trote. Minha pele de croata suíço alemão estava vermelha, queimada pelo sol após um ano enfurnado estudando. A queimadura foi piorada pelo banho de óleo queimado na Praça Santos Andrade. Meu pai precisou me levar para casa no porta-malas aberto de seu Oldsmobile. Foram alguns dias até tirar o óleo com água escorrendo. Esfregando vinha pele junto.

Meu pai, alguns primos e eu fizemos uma pequena comemoração com scotch whisky em um canto da enorme e vazia sala de visitas de nossa casa de Curitiba. Porém, a comemoração foi anti-climática. Eu sempre soube que ia passar, tinha me preparado como para uma competição de natação. Achava tudo aquilo burocrático. Mas meu pai estava revoltado. Ele havia acompanhado no dia a dia a correção das provas com conhecidos seus, em especial o Dr Zacarias Alves de Souza Filho. Ele havia seguido todos os dias, menos o último. Sua felicidade quando foi nos comunicar o resultado em Caiobá era porque eu estava em primeiro lugar isolado.

Durante a semana de prova nós checávamos os resultados diariamente, de acordo com um gabarito do cursinho Dom Bosco, que batia bem com o resultado dado pela UFPR. Eu havia conseguido nota máxima entre os vestibulandos nossos conhecidos pelo menos em Português (75) e Inglês (100). Talvez em Química (78). Uma das melhores notas em Física. Em Biologia achei que tinha obtido 60, mas recebi um surpreendente 48/100. Na classificação publicada pela UFPR, fiquei em quarto lugar. Em primeiro ficou meu colega de Colégio Santa Maria, Ricardo Cesar Rocha Moreira, outro atleta, que havia conseguido 100 em Conhecimentos Gerais. Nesta eu tinha obtido 85/100.

Do grupo que estava em Caiobá, sairiam o 1º, 4º, 7º, 9º, 10º e 13º lugares da classificação. Eu não esperava passar tão bem colocado. Com 16 anos de idade era o mais novo de todos os aprovados; fiz 17 no primeiro dia da prova, 4 de janeiro. Menino da sociedade, arroz de festa, campeão de natação, eu tinha múltiplos interesses. Em seguida um colega e eu saímos em uma viagem por terra e água que nos levaria a Manaus. Enquanto estávamos fora, as coisas só complicaram. Dois aprovados ilustres foram presos pela Polícia Federal por fraude. Um terceiro escapou. Ele havia conseguido sentar-se junto e passou colando do meu principal colega de estudos, que ele subornou. Inúmeros filhos de gente poderosa de Curitiba, mais velhos, não exatamente CDFs, foram aprovados. Corria a fofoca na época que 182 aprovados para 160 vagas, resultava em 22, e havia 22 filhos de médicos nos aprovados.

Recentemente, em 2019, tive a oportunidade de confrontar o primeiro lugar, Ricardo Cesar Rocha Moreira, em uma longa conversa em frente ao Hospital Nossa Senhora das Graças. Ricardo lembra de cada uma de suas notas. Eu lembro das minhas. Terminamos a conversa com ele dizendo: “E eu fiquei com a fama!” Fiquei com a impressão que ele sempre soube da fraude do vestibular corrupto no Paraná.

Corrupção militar no Paraná já é tradição. A mesma elite que colocou estes 22 alunos medíocres para dentro do curso mais nobre da UFPR em 1971, os manteve em posições de liderança. Eles ainda dão as ordens na Medicina curitibana. A Curitiba de Richa, Greca e Bolsonaro é a mesma de Flávio Suplicy de Lacerda, de Ernani Simas Alves e do Marechal Ewerton Quadros.  http://www.dimpna.com/2017/10/06/ewerton-quadros-e-o-crime-militar-em-curitiba/ . Esta falta de evolução moral, ética, social e política na capital mais avançada do Brasil é a causa da pandemia estar tão pior aqui que em outros lugares menos desenvolvidos, como Cuba. O Paraná tem 50 vezes mais mortes e 30 vezes mais casos de COVID 19 que Cuba, que tem a mesma população que o Paraná.

O mesmo sistema adotado para este vestibular corrupto, detalhado e cuidadoso até na punição a alguns escolhidos, repetiu-se em dois outros concursos públicos federais que eu mesmo fiz, nas federais do Paraná e da Bahia. Bem igual, descontam uma notinha aqui, outra ali, quando ninguém está checando, e fazem o que querem. É corrupção metodológica, detalhista, estrutural, bem como a do judiciário. Repetiu-se no caso de Beto e Pepe Richa, sacrificados pela cara de pau, mas sem perder o benefício adquirido. Os dois presos pela Polícia Federal pela fraude do vestibular corrupto não tiveram nenhuma consequência de seu ato. A República de Curitiba é otomana em sua moral e organização.

Dr Paulo Bittencourt ( o filho)

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