A tragédia da COVID 19 é pior no Brasil e EUA. O gráfico principal mostrado aqui, que compara mortalidade da pandemia com o declínio de PIB no segundo trimestre de 2020, não tem o Brasil. A mesma Oxford University que vai providenciar as vacinas que Bolsonaro e Pazuello alardeiam, não acredita o suficiente nas estatísticas brasileiras. O Brasil é menos confiável que a Nigéria, Indonésia, Filipinas, Mexico, Peru, Chile e Colombia.

O texto a seguir é uma adaptação e transcrição fiel do publicado pelos editores de uma das revistas médicas mais prestigiadas do planeta com respeito à situação da pandemia nos EUA.

The Editors. Dying in a Leadership Vacuum. N Engl J Med October 8, 2020; 383:1479-1480 DOI: 10.1056/NEJMe2029812

No artigo anexo a este eu explico como a tragédia da COVID 19 no Brasil é ainda muito pior que a situação americana, e que as críticas do New England Journal of Medicine ao governo americano seriam muito piores no caso do Brasil. Talvez a nossa seja a pior situação da pandemia no planeta, com exceção do Peru.

A mortalidade americana é mais do dobro da do Canadá e excede a do Japão em 50 vezes. Note-se que o Japão é um país com uma grande população vulnerável e idosa. A mortalidade americana, e, portanto, a brasileira, deixam no pé taxas de países de baixa e média renda, como o Vietnam, onde a mortalidade é 2000 vezes menor.

A China enfrentou o primeiro surto com demora de algumas semanas, mas depois escolheu quarentena e isolamento radicais. As medidas eliminaram a transmissão onde o surto começou, e reduziram a mortalidade a 3 pessoas por milhão de habitantes, comparado a 500 por milhão nos EUA e 721 por milhão no Brasil.

Embora os números absolutos de testes tenham aumentado nos EUA e talvez no Brasil, a medida mais útil é o número de testes por pessoas infectadas, Nesta conta EUA e Brasil estão abaixo de países como Cazaquistão, Zimbabwe e Etiópia, que não tem a estrutura biomédica ou industrial brasileira ou americana. Além disso, a pouca ênfase no desenvolvimento tecnológico levou os testes no Brasil e nos EUA a demorarem muito. Sem o resultado imediato são inúteis como ferramenta de controle epidemiológico.

Embora o foco americano seja tecnológico, a maior parte das intervenções epidemiológicas eficientes não são complicadas. O aue poderia ter evitado ou diminuído a tragédia da COVID 19 é bem conhecido. O isolamento e a quarentena americanos foram tardios e inconsistentes, sem esforço de fiscalização, até que a doença já estivesse espalhada em várias comunidades. As regras de distanciamento social foram no mínimo infantis, de curta duração.

Na maior parte do país as pessoas simplesmente não usam máscaras, porque os líderes afirmaram que são ferramentas políticas, quando na verdade são medidas efetivas de controle de contágio.

O governo investiu em vacinas, mas sua retórica politizou o desenvolvimento e criou desconfiança crescente na população. Criou-se uma situação onde as vacinas chegam tarde e não são balas de prata. A frustração pela fraude eleitoral pode fazer a população reagir ainda pior à complexidade das vacinas.

A resposta nacional americana foi consistentemente inadequada. Note que é muito semelhante à reação do governo brasileiro. O governo federal americano abandonou o controle da doença para os estados. Governadores responderam de maneira variável, até por competência variável. Porém, governadores não tem as ferramentas do governo central. Ao invés de utilizá-las, o governo central minou seus esforços. O Centers for Disease Control and Prevention, que era líder mundial de resposta epidemiológica, foi eviscerado e sofreu falhas dramáticas de testagem e controle. Os National Institutes of Health ajudaram nas vacinas, mas foram excluídos das tomadas de decisão. A Food and Drug Administration foi vergonhosamente politizada, e passou a responder a pressão política e não a evidência científica.

Os líderes americanos destruíram a confiança na ciência e no governo, causando um dano que vai durar mais do que seus mandatos. Ao invés de se basear em especialistas, virou-se para líderes de opinião, desinformados, charlatães que turvaram e obscureceram a verdade e facilitaram a propagação de mentiras descaradas.

A ênfase da atual administração na economia foi um crime, outra fraude eleitoral. Agora, poucos meses depois, assistimos outros países terem algum grau de abertura, enquanto nos EUA persistem taxas de doença que impedem muitos negócios de funcionar, com perda de milhões de empregos e de centenas de bilhões de dólares. E mais de 200,000 americanos morreram. Embora seja difícil precisar o número de mortes adicionais causadas pelas políticas governamentais fracas e inapropriadas, está pelo menos nas dezenas de milhares, em uma pandemia que já matou mais americanos que qualquer conflito desde a 2ª Grande Guerra Mundial.

Qualquer pessoa que tivesse desperdiçado tantas vidas e tanto dinheiro estaria sofrendo as consequências legais, enquanto nossos líderes alegam impunidade. A eleição atual nos dá a oportunidade de julgá-los. Pessoas razoáveis vão discordar das posições políticas da liderança atual. A verdade não é liberal ou conservadora. Na hora da resposta à maior crise de saúde pública da nossa era, nossos líderes políticos atuais demonstraram ser perigosamente incompetentes. Nós não podemos apoiá-los e permitir que mantenham seus empregos e levem à morte de mais dezenas de milhares de americanos. O mesmo pode ser dito sobre o Brasil, onde 150 mil pessoas já morreram. Tudo é muito pior no Brasil do que nos EUA.

Texto traduzido e adaptado por Dr Paulo Bittencourt

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