Créditos de imagem: Oxford University.

Os números da COVID 19 no Brasil são os piores do mundo todo, talvez com exceção do Peru, levando em conta a população.

Mortes confirmadas (wikipedia)                       1 de outubro de 2020

USA                                                           204,642

 Brasil                                                        142,921

 India                                                          98,678

 Mexico                                                      77,163

 Grã-Bretanha                                              42,143

 Itália                                                          35,894

 Peru                                                          32,396

 Espanha                                                     31,791

 França                                                       31,746

 Irã                                                             26,169

 Colombia                                                   25,828

 Russia                                                        20,891

Muito precisa ser adivinhado sobre a COVID 19 no Brasil, depois que Bolsonaro e Pazuello tomaram os ministérios dos técnicos da área. E depois que Greca, Ratinho e Beto Preto se abstiveram de participar da pandemia. Aqui estamos usando os dados públicos do Brasil e de Curitiba, e o que é disponível nos textos e gráficos do grupo de trabalho One World in Data, coordenado pela Oxford University, adotados pelas maiores organizações de mídia e ensino no planeta, da Harvard University à BBC. 

Uma análise dos números da pandemia até o dia 7 de outubro mostra que a situação brasileira é pior que a americana. Temos muitos mais casos por dia, mais mortes por população, e incrivelmente menos testagem.

Outubro 2020PopulaçãoCasos TotalCasos por diaMortes Total
Brasil208 milhões5 milhões37000150000
EUA328 milhões7,5 milhões43000210000

O que torna a COVID 19 no Brasil muito pior que os EUA é a situação de testagem. Lá são realizados 2,87 testes por dia por 1000 habitantes. Aqui, são 0,35. Nos EUA a taxa de positividade é 4,7%. No Brasil, mais de 50%. No Brasil haviam sido realizados 13,7 testes por 1000 habitantes até 3 de julho, ou seja, 2850000 testes; havia 1,5 milhão de casos: a positividade é mais de 50%. Em outras palavras, no Brasil a testagem é utilizada para tratamento dos doentes, e não para controle epidemiológico.

A OMS recomenda que a taxa de positividade seja menos que 10%, se possível menos que 3%. Ou seja, que testes sejam realizados em muito mais pessoas do que as que estão doentes, com o objetivo de identificar, testar e isolar contatos de pessoas doentes. Conter surtos localizados é a única maneira que a Epidemiologia conhece para conter epidemias e pandemias.

Os médicos brasileiros não têm se demonstrado sobre o genocídio patrocinado por Bolsonaro, Ratinho e Greca. Mas nós podemos nos basear no editorial de uma das revistas médicas mais prestigiadas do planeta com respeito à situação da pandemia nos EUA.

The Editors. Dying in a Leadership Vacuum. N Engl J Med October 8, 2020; 383:1479-1480 DOI: 10.1056/NEJMe2029812

As críticas do New England ao governo americano seriam muito piores no caso da COVID 19 no Brasil. Enquanto o foco do governo americano é tecnológico e do governo brasileiro popular, as intervenções de efeito amplo não são complicadas. Mas são parte de especialidades do ramo da Saúde Pública, a chamada Epidemiologia, uma ciência médica estabelecida no século 19, antes da cardiologia, infectologia, ou qualquer outra. É praticada por pessoas como Oswaldo Cruz, há mais de 100 anos, no Rio de Janeiro. E Florence Nightingale, na guerra da Criméia, há 150 anos. Entre nós o isolamento, a quarentena e o distanciamento social foram “fake”. Nossos líderes afirmaram que são ferramentas políticas. O governo investiu em vacinas, mas sua retórica politizou o desenvolvimento, e criou desconfiança crescente na população. Os organismos de saúde pública tanto lá quanto aqui foram eviscerados, destruídos operacionalmente, passaram a responder a pressão política e não a evidência científica. Ao invés de se basear em especialistas, os governos centrais se viraram para charlatães que propagaram mentiras descaradas.

A ênfase na economia foi usada para encobrir a negação da pandemia, levando a perda de milhões de empregos, centenas de bilhões de dólares, 200 mil americanos e 150 mil brasileiros. Talvez dezenas de milhares destas mortes possam ser creditadas especificamente ao vácuo de liderança dos governos centrais americano e brasileiro, e seus aliados. No Paraná tanto o governo estadual quanto o municipal de Curitiba tiveram esta mesma atitude. Governador, prefeito de Curitiba e secretário estadual da saúde delegaram a uma enfermeira, profissional da saúde de 4º escalão, passar as notícias diárias da pandemia a 2 milhões de curitibanos. E ela mentiu da mesma forma. A situação em Curitiba é um genocídio nunca visto. Nunca morreram tantos brasileiros em nenhuma guerra ou qualquer forma de tragédia. A pandemia matou mais americanos que qualquer conflito desde a 2ª Grande Guerra Mundial, mas brasileiros nunca tiveram qualquer tragédia desta monta.

Nossos líderes alegam impunidade por esta fraude eleitoral criminosa. Pessoas com um mínimo de bom senso vão discordar das posições políticas da liderança atual. A verdade é a verdade, e não é liberal ou conservadora. Na hora da resposta à maior crise de saúde pública da nossa era, nossos líderes políticos atuais demonstraram ser perigosamente incompetentes. Nós não podemos apoiá-los e permitir que mantenham seus empregos e levem à morte de mais dezenas de milhares de brasileiros, nem de curitibanos.

Dr Paulo Bittencourt

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