Maria. Nome comum, ser humano complexo. Desejosa de afago nunca pediu com palavras. Enroscava-se, falava fininho, até biquinho fazia. Em troca recebia um tranco nas ancas e um beijo sensual, quase um agradecimento, ou favor quem sabe… Ela entendia que necessidades são vitais e vital é atende-las. Mas persistia, inconscientemente, afinando a voz toda vez que suas necessidades não eram atendidas. Um círculo vicioso de uma receita que combina cultura, educação, instinto e consciência. Demasiado humano e por isso, pouca música, pouca arte, sabor já conhecido, gosto de vazio. Ouvia música, recitava poemas consigo, beijava o vento. Às vezes, o silêncio gritava para ela. Maria. Tesa. Corajosa, mantinha-se fiel àquilo que entendia ainda “valer a pena”, ou que ainda vale “ter pena”. O desejo feminino de Maria…

Eis que Maria, selvagem como toda mulher que decide mergulhar em si, vira a chave. O desejo feminino de mudança de Maria. Pisa forte, atende seus desejos. Adapta a fala e passa a dizer o que pensa, assim … na lata. Sonoro. Aberto. Para fora. Para si. Para ser ouvida. Sem a mínima questão de esconder o egoísmo, Maria se apresenta como a Afrodite rebelde, saciada por seus próprios desígnios e sem o menor pudor, quiçá respeito. O que outrora fora circular, orgânico, agora é reto, pá-buff. Mulher pede licença. Maria explora, calcula movimentos, encena coreografias, experimenta mudar de cidade, de país, de estado de consciência.

Na busca, Maria entende que melhor do que a rota é o caminho. E vira a chave de novo. O desejo feminino de mudança de Maria acontece. Apaixona-se pelo caminho e perde-se planeta afora. A fixação pelas próprias fantasias. Mata sua própria fome. Autêntica. Afoita. Atávica. Afrodite. O passeio fez alguma mudança. Ciente dos próprios desejos, antes do mundo, atende-os sem pudor e em segredo. Percebe que o legado de suas flechas fez o pequeno Eros de bobo. Deleitou-se. Maria deita em seu próprio ventre, cálida, desnuda de si mesma. Alegra-se. Una. Estática. Completa. Regozija-se da conquista. E ri… de si mesma…. ri de José…

Ana Luíza

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