O amor na pandemia deixou de ser uma impressão da realidade para tornar-se um avatar, uma imagem holográfica. Aprendi esta noção com meu cliente José, que começou a se relacionar com o sexo oposto nos anos 1970. Passou por amores à primeira vista, por proximidade, interesse e convívio. Paqueras e namoros por correio, telefone, telefax e email. Automóvel, ônibus, navio e avião. José conhecia as experiências prazerosas e litigiosas destas épocas. Afinal, já existiam convenções sociais e as relações já eram instáveis. O Kama Sutra estava nas prateleiras, vias de acesso e posições na cama eram conhecidas.  Separações, divórcios, chifres, paixão e poliamor estavam vividos, escritos e filmados.

Os curitibanos começaram a transar com namoradas e amigas nos anos 1970, houve o impacto da AIDS nos anos 1990, mas com a rapidez e facilidade da comunicação nos anos 2000 os LGBT e as mulheres ficaram mais assertivos. Ali por 2010, José, eterno solteiro sentindo-se meio aposentado de aventuras, tinha um timinho pequeno, fiel e organizado de companheiras, montado pelos métodos antigos. Encontravam-se por 2 horas em dias de semana e pouco mais nos fins de semana ou viagens. Acostumado a ser abordado no mercado por uma maravilha das academias, assimilou que depois de deixarem um dos carros ali mesmo, no caminho para casa ou motel a moça criava seu currículo no smartphone, como um holograma. O que está nestas cabeças não é quem está ao lado, e sim um avatar desenhado pelo seu próprio desejo. Um terraplanismo, como a ivermectina.

Assediado a vida toda, acostumado a responder quando provocado, José aprendeu que agora o achavam pelo Facebook ou Instagram, dialogavam pelo Messenger e Instagram, e se tornavam porno-eróticas e marcavam encontros no Whatsapp. Pessoas de todo tipo, desde óbvios golpes usando capas juvenis de Playboy até outras mais discretas. Muitas exibidas e muitos gays.

Ao dominar as redes sociais, José desenvolveu uma estratégia de driblar as impostoras marcando encontro em local público seguro, com CCTV. As poucas que aceitavam demonstravam que a persona cibernética era hipotética. Uma morena escultural de Porto Seguro chegou no meio da noite direto no quarto do hotel em Curitiba, não permitiu que ele acendesse a luz nem fosse junto com ela tomar banho. Depois de horas de sexo selvagem no escuro, já de manhã, José percebeu que a moça era uma senhora. Outra compareceu a um encontro sábado à tarde vestida para um baile de gala, uns 25kg mais pesada do que ele imaginava.

José captou o efeito da multiplicidade de experiências, simultâneas, quase instantâneas, providenciada pelas redes sociais nos smartphones. O desconcertante eram estes encontros entre avatares, narrativas cibernéticas e interpretações, a dupla ilusão. Ir no banheiro passou a ser um desafio, pois no re-encontro as moças introduziam uma nova técnica desta ou daquela modalidade postural que haviam pesquisado em minutos, ou obtido das amigas confidentes.

E daí veio a pandemia. As principais consequências do amor na pandemia foram divergentes: a abundância de tempo e a monogamia. As moças do timinho entraram em corona-pânico e José ficou em grande amargura. Suas experiências o levavam a não acreditar que ia achar uma “esposa” na cacofonia do pântano cibernético. Já revoltado por ter que trocar academia e mountain-bike por elíptico e colchonete, achou o fim ter que trocar o timinho por uma “esposa” holográfica. E então a oferta aumentou. Apareceram todo tipo de mulheres, inclusive muito jovens e idosas, em vários sistemas financeiros variantes do sugar-daddy: diziam que José ia buscá-las em casa às vistas de familiares e vizinhos, não cobravam, mas trocavam sexo e acompanhamento por “mimos”.

José era admirador de sexo lento, que mira o prazer feminino. Passou a querer ficar horas ali na atividade, queria mesmo uma mulher fixa. E achou uma possível esposa, a distância automobilística. Casa a casa no mesmo tanque de combustível, dirigindo com o computador de bordo no consumo. Muito disposta e multi-orgástica, a senhora com corpinho de menina levou José a diminuir o tempo de exercício no elíptico para permanecer mais na prática vital. E engordou. Moças esperam boa comida além dos mimos. O sexo foi estupendo. Claro que já havia tido algumas luas de mel, mas agora passou a aplicar Mindfulness, até por minha sugestão em nossas sessões de terapia. Atenção total tornou-se essencial para perceber que a moça estava tentando, se esforçando, aprendendo ali no ato algo sugerido pelas amigas. José aprendeu a retribuir calculando nos centímetros e segundos para surpreender e desafiar a parceira, em horas seguidas na atividade. O amor na pandemia virou monogamia obsessiva.

Então a moça enlouqueceu. Intempérie já conhecida de José: surto no pico de uma vida sexual fenomenal. Mulheres que poderiam ter se tornado “esposas”. Uma havia sumido de vez. Com outra José havia aprendido a ser paciente, esperava ela voltar. Agora, a candidata mantinha contato cibernético com amigas e ex-namorados, criava ideias paranoicas de ciúmes e de estar sendo assediada e começou a fazer coisas perigosas. José saiu de cena.

José e eu concluímos que loucura multi-orgástica é sobrecarga cibernética. Conflito de avatares. O processador trava com a rapidez e quantidade de informações. Não há fronteiras de tempo e espaço. Não tem como passar pelo velho sistema de namoro, noivado e casamento. Hologramas incompatíveis. Até José havia descoberto coisas inesperadas da moça em dias, que teria demorado meses e anos no tempo do telefone fixo. E o amor na pandemia complicou-se pela mesma via que o tornou épico. Diversidade de possibilidades. Cada qual idealiza um parceiro, constrói o holograma baseado no que está nas redes sociais, que é o que o outro imagina de si mesmo. Quando se conhecem o turbilhão que não cabe na dupla ilusão de seus avatares. Pragmático, José está refletindo. Animou-se. Quer mais. Sente que seu cacife aumentou.

Paulo Bittencourt

Cadeira 11 da Academia de Lêtras José de Alencar

Foto da amígdala, a parte do Sistema Límbico no cérebro humano onde ocorre a brabeza. O amor é próximo. Gentileza de Greg Dunn, Philadelphia, www.gregadunn.com

Este é um texto de ficção, uma pequena crônica, que visa ajudar as pessoas a conviver na tragédia diária do Novo Normal do mundo com a pandemia que não vai passar. Embora inspirado na realidade, os personagens e suas experiências são fictícios, como no realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, de quem o autor é grande admirador.

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