A duração da pandemia COVID 19, que já matou três milhões de pessoas em abril de 2021, pode ser assustadora. Em vários estados americanos e brasileiros, assim como em vários países, repiques e novos surtos ocorrem quando reabrem as atividades que propiciam aglomeração. Em todo o mundo, e em especial no Brasil, nem os líderes nem a população conseguem obedecer princípios de saúde pública e epidemiologia. Vai ficando claro que a balbúrdia sanitária só vai terminar por invasão alienígena, milagre divino, pela disponibilidade maciça de vacinas, ou por uma imunidade de rebanho cada vez mais improvável. A aparente brincadeira se faz necessária pela esdrúxula reação dos líderes dos dois maiores países do hemisfério, EUA e Brasil. Trump e Bolsonaro eram os homens mais ridicularizados do mundo na virada de 2020 para 2021. Agora, em abril de 2021, Bolsonaro é o campeão isolado. E uma parte significante do povo brasileiro demonstrou que acredita mais em rezar do que em medidas sanitárias. Toda esta realidade foi prevista em maio de 2020.

https://www.mdlinx.com/neurology/top-medical-news/article/2020/04/29/7673684

O relatório CIDRAP da University of Minnesota de maio de 2020 leva em conta períodos de incubação, períodos assintomáticos e a capacidade de reprodução viral, em comparações dos vírus influenza com o novo coronavirus. A conclusão é que a COVID 19 é pior devido ao período de incubação mais longo, mais infecções por contágio de assintomáticos, e uma capacidade de reprodução maior que da influenza. O cálculo em maio de 2020 era que a imunidade de rebanho seria atingida em 2-3 anos, no meio de 2023. Na época, a escola de Saúde Pública Harvard sugeriu que as medidas de isolamento perdurassem até 2022. A Reuters já havia relatado que pesquisadores alemães chegaram à mesma estimativa. O Prof. Dr. Lothar Wieler, do Robert Koch Institute, Berlim, anunciou em coletiva de imprensa que a pandemia duraria 2-3 anos, quando 60-70% da humanidade estivesse imunizada. Este cálculo se mostrou otimista. Os sistemas de saúde não aguentam este ritmo. Para não ocorrer uma mortandade maciça, o avanço da pandemia precisa ser mais lento, e a prevista imunidade de rebanho demoraria mais para 4 ou 5 anos, lá por 2025 ou 2026.

Este cálculo da duração da pandemia COVID 19 de maio de 2020 era baseado no novo corona vírus não sofrer mutações. Este cenário otimista foi derrubado pela emergência das cepas inglesa, sul-africana e amazônica, que levaram a esta nova onda da pandemia em curso atualmente. O gráfico mostra as mortes totais diárias – média semanal colocada todo dia no gráfico – confirmadas. Fica claro que a onda atual é a pior, e seguiu-se às novas cepas. A onda cedeu rapidamente no Reino Unido com a vacinação em massa; nos EUA com a mudança de protocolos sanitários de Trump para Biden, e vacinação em massa.

Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna

Ainda de acordo com o relatório destas instituições de maio de 2020, sem vacinação em massa, existiam alguns cenários possíveis para a duração da pandemia COVID 19. No primeiro a primeira onda seria seguida por pequenas ondas durante um período de pelo menos 2 anos. A intensidade destas ondas dependeria da qualidade das medidas de atenuação e mitigação de lockdown, máscaras e distanciamento social. O principal método, testagem rápida e isolamento dos infectados e seus contatos, não foi possível em muitos países. Quando adotado, como na Nova Zelândia e Vietnam, a onda cedeu mesmo sem vacinação em massa. O melhor cenário previsto em maior de 2020 era a pandemia arrefecer em 2022 e 2023. Não parece ser o que está ocorrendo.

O segundo cenário para uma previsão da duração da pandemia COVID 19 é como aconteceu com epidemia de influenza de 1918, na qual uma onda inicial foi seguida de uma segunda onda pior, depois uma terceira e quarta ondas, cada uma ocorrendo a cada 3-6 meses.  É o que tem se observado com a onda atual da pandemia COVID 19. A primeira onda foi seguida por surtos regionais de intensidade variando com as medidas de segurança implementada. Em países que adotaram rígidos protocolos da saúde pública a incidência de novos casos zerou, como Nova Zelândia, China, Vietnam, Coreia do Sul. O relatório CIDRAP de maior de 2020 já concluía que alguma forma de atenuação e mitigação é necessária para combater atividade significante do COVID-19 com surtos regionais em hot spots em várias áreas geográficas. Porém, a pandemia ganhou ao invés de perder a força. As mutações e a má resposta da população são os responsáveis.

https://www.bloomberg.com/news/features/2020-06-18/we-will-be-living-with-the-coronavirus-pandemic-well-into-2021

A solução da situação de pandemia realmente virá com um misto de medidas de saúde pública e vacinação em massa repetida. Imunidade de rebanho mostrou-se uma fantasia, dura alguns meses. Assim como o efeito das vacinas, que não são uma bala de prata. A solução das vacinas é lenta, demora anos, e não está equacionada. Já existe uma intensa briga política internacional. Os países ricos pagam mais e compram vacinas para suas populações. Espertinhos como os brasileiros caíram em sua própria armadilha.

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/07/09/plano-para-imunizar-o-mundo-se-transforma-em-intensa-disputa-politica.htm

Em um cenário otimista para uma previsão da duração da pandemia COVID 19, se a OMS equacionasse a distribuição das vacinas, os profissionais de saúde seriam vacinados em 2021, ficariam para 2022 os grupos de maior risco, e para 2023 a população em geral. Este cenário se complicou muito. O vírus está mais poderoso. O povo não segue regras sanitárias. As populações vacinadas estão sendo escolhidas de maneira eleitoreira. A vacinação em massa precisará ser repetida anualmente. Em resumo, esta situação de balbúrdia sanitária de pandemia com surtos regionais vai durar vários anos, e ainda não tem uma solução objetivamente demonstrada.

Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna

O gráfico é o mesmo do outro mais acima, mas está focado na segunda onda, controlada da por vacinação em massa e medidas sanitárias no Reino Unido e nos EUA. E inclui Portugal, que teve a segunda onda controlada sem vacinas, por várias semanas de lock down, o que nunca foi feito no Brasil.

Em março de 2021 morreram 60 mil brasileiros de COVID 19. Em abril serão 90 mil, estamos fixos em 3000 mortes diárias. Não acredito ser possível prever o que vai ocorrer conosco. Não existe liderança sanitária como Joe Biden nos EUA. Nosso governo central está derretendo. Os estaduais e municipais perderam credibilidade. Não teremos vacinas nos próximos meses. Não enxergamos um horizonte de vacinação em massa anual. O principal produtor de vacinas, a Índia, está com dificuldades de produção pois insumos não estão vindo dos EUA e Europa. E está tendo um rápido crescimento de casos domésticos e nos países vizinhos, como Paquistão. Chineses também estão vacinando sua população e tem maior obrigação com seus vizinhos e áreas de influência. Espertos foram os israelenses e ingleses, que se vacinaram antes deste travamento da produção internacional.

Dr Paulo Bittencourt

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