Se você que ver a relação entre o governo Bolsonaro e genocídio na pandemia do COVID 19, assista os dois minutos da entrevista onde o presidente do maior país do Hemisfério Sul justifica seu pensamento e suas ações. Pense objetivamente sobre os argumentos do presidente do Brasil e reflita se são válidos, circulares, ou a mais pura canalhice. Creio que dá para criar uma ideia pelas palavras do presidente. Argumento circular é aquele que não prova nada, retorna à ideia do proponente. No Bolsonarismo o mais frequente é matar o mensageiro, como faziam os imperadores romanos. Quando chegava alguém com alguma notícia ruim lá dos confins do império, eles eliminavam o portador da mensagem e todos seus companheiros. Na época funcionava, pois o império era enorme e demorava meses ou anos para a má notícia retornar por outra via. Canalhice é pura enganação, fingimento, tentar favorecer seu grupo racial, político, religiosos ou social, através do mal dos outros

Bolsonaro diz que está sendo processado por genocídio no Brasil e no exterior. Ele cita literalmente a associação entre o governo Bolsonaro e genocídio na pandemia COVID 19. Defende-se com o seu argumento econômico, dizendo que a expectativa de vida do Brasil é melhor que a do Zimbabwe devido à nossa renda per capita ser superior. Este é um argumento duplamente falso. Ninguém usa expectativa de vida e renda per capita há 20 anos, pelo menos desde a virada do século, quando inicialmente passou a ser usado o tempo de vida longe de doença. O índice do século XXI é o IDH, índice de desenvolvimento humano. Não existe justificativa para um presidente tomar ações que podem associar o governo Bolsonaro e genocídio na pandemia COVID 19 e não falar em termos no mínimo correntes. O IDH foi adotado justamente por que as melhores vidas livres de doença e sofrimento não estão nos EUA, Inglaterra, França, Suécia ou Alemanha. Estão no Japão e países mediterrâneos. Saúde e hábitos de vida são no mínimo tão importante quanto renda, e existem outros fatores reconhecidos, como viver em um clã. Cuba, Finlândia, Marrocos e Grécia são exemplos.

Depois Bolsonaro diz que Tedros Adhanom Ghebreyesus , o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, não é médico. Thedros na verdade é um sanitarista, agente sanitário, Ele é um biólogo com mestrado e doutorado em saúde pública. Se não for absoluta canalhice, este argumento é uma ignorância fatal para milhões de brasileiros. Sem agentes sanitaristas nunca controlaremos nenhuma epidemia. O trabalho de busca ativa e isolamento de contatos de doentes é feito por estes profissionais. Esta negação da ciência epidemiológica é fatal. É exatamente o que todos os países desenvolvidos que tem sistemas de saúde pública funcionantes estão fazendo, Mas existe enorme dificuldade devido à intensidade e velocidade da pandemia.

Porém, este argumento é uma pista forte de argumento circular, de tentativa de matar o mensageiro. Se o presidente da Organização Mundial da Saúde for um enfermeiro, médico, bioquímico, biólogo, não estará mais distante de economistas que os administradores, engenheiros e contadores que dominam cargos financeiros. Pior, é um argumento que tende a confirmar a relação entre o governo Bolsonaro e genocídio na pandemia do COVID 19, por que é falso, uma enganação. Esta é uma interpretação simples da situação, pois as lives de Bolsonaro são um teatro de fantoches com recursos muito antigos e simplórios. O ataque a Thedros ilumina a ignorância troglodita do Tenente Bolsonaro, límpida no restante de sua preleção. Ele não sabe ou não quer saber que existe epidemiologia e saúde pública.

O que Bolsonaro, Trump e mesmo intelectuais como Luiz Felipe Pondé ignoram é a disciplina da epidemiologia e saúde pública, matéria dos livros da figura. Os do primeiro plano são de neurologia nos trópicos, e todos contam com capítulos meus. Foram escritos entre 1985 e 2015. Todos contém vários capítulos sobre a ciência chamada epidemiologia e saúde pública. No virada do século 19 para o 20 era chamada Tisiologia, pois as doenças comuns eram tuberculose e lepra, e lepra era feio demais. Depois passou a se chamar doenças tropicais, pois logo se descobriu que existiam muitas outras doenças, que eram mais comuns nos países tropicais, mais pobres. E separou-se como Infectologia por um pecado da Medicina do fim do século 20: a influência da indústria farmacêutica, exibida completamente na epidemia de AIDS. Sanitaristas ficaram restritos a órgãos públicos. A necessidade de grande número e a emergência dos cursos para-médicos tornou esta ciência muito mais forte. Tem pesquisas, métodos e medidas. Trata-se de uma ciência como Física ou Química, um patamar que a Psicanálise nunca atingiu, por exemplo. Como o espiritismo ou as religiões. História e Política são ciências humanas. Epidemiologia e Saúde Pública são disciplinas da Biologia, ciências médicas, misto de humanas com biológicas.

Dr Paulo Bittencourt

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