A origem do alcoolismo é reconhecidamente multifatorial, consequência de fatores intrínsecos da pessoa e de sua interação com o meio ambiente. É o mesmo caso que o abuso de algumas substâncias, sempre as mesmas, que acompanha a humanidade desde 4 mil anos atrás. Foi só nos últimos 100 anos que começou o movimento no sentido de tornar certas substâncias lícitas e outras ilícitas, principalmente originado nos EUA.

Minha interpretação dos dados existentes sobre genética é que a herança de algum grau de bipolaridade predispõe as pessoas para uma certa tempestividade, rapidez na tomada de decisões, com resultante excesso de coragem, ações e emoções. É uma característica oposta ao pavio mais longo. As pessoas com menor carga genética de bipolaridade refletem mais e optam pela alternativa mais segura.

Um fator gerador básico na origem do alcoolismo pode ser enfrentado com facilidade por política de saúde. É o uso do álcool na infância e adolescência. Faça uma enquete no seu ambiente social. Vá com calma perguntando aos que bebem mais e menos e anote num papelzinho, ou no seu celular. Você logo verá que os bebedores mais pesados já bebiam em casa com a família, em churrascos, festas, aniversários, jantares comemorativos, Natal, ano novo, Páscoa, e assim por diante. Meu avô dava uma batida de ovo, uma gemada que com certeza tinha pinga, para os netos pequenos quando voltavam da praia gelada dos invernos em Guaratuba, litoral do Paraná. Crianças ainda de colo eram sedadas com pirulitos de groselha com álcool em comunidades indígenas ou muito pobres do interior do Brasil. Assim foi na família de Garrincha, que deveria ter sido o maior jogador de futebol da história. Álcool é o sedativo infantil dos pobres, e, provavelmente, de muitos ricos também.

A neurociência ortodoxa já mostrou há muito tempo que o cérebro em desenvolvimento é plástico, como uma gelatina, e não duro como uma pedra. A melhor analogia é com um botão de rosa que se abre lentamente. As sinapses e receptores, os axônios e dendritos dos neurônios estão crescendo e se ligando o tempo todo. A velocidade é tanto maior quanto menor a criança. Nos primeiros anos de vida não existe uma separação clara entre substância cinzenta e branca. Núcleos da base, do tronco cerebral, hipocampo e ínsula não estão formados. Por esta razão as crianças logo que nascem pouco ouvem, enxergam, não andam nem falam. Todos sabem que esta plasticidade diminui ao fim da adolescência e durante a juventude. É muito provável que sistemas neurológicos diferentes atinjam este pico de desenvolvimento em idades diferentes, depois do qual lentamente começam a involuir com o envelhecimento.

Então, se existe álcool ou nicotina no cérebro durante as fases de desenvolvimento acelerado, sinapses e receptores serão criados para estas substâncias. Quanto antes isso acontecer, mais se desenvolverão estes receptores para a substância que está circulando por ali. Por esta razão é um horror mães beberem na gravidez. Mas também é péssimo bebida em qualquer forma até o fim da adolescência. O cérebro que cresce com álcool vai querer álcool sempre. Este é um fato claro na origem do alcoolismo.

Os fatores ambientais envolvidos na origem do alcoolismo envolvem as atividades de psicólogos, psicanalistas, religiosos, conselheiros espirituais e matrimoniais, assistentes sociais, especialistas em emprego e reabilitação. É um exército no qual existem pessoas com mais e menos interesse em abuso de substâncias lícitas e ilícitas. Porém, na perspectiva psicossocial, talvez o fator mais importante na origem do alcoolismo sejam os preconceitos que impedem o atendimento eficaz destas pessoas. A cultura norte-americana trouxe a obesidade, a nicotina e o álcool. A cultura europeia ocidental já apoiava o álcool e a nicotina, mas nunca teve os pastos necessários para gerar tanta obesidade quanto americanos e brasileiros.

Tratar obesidade, tabagismo e alcoolismo como doença e cannabis, coca, efedrina e heroína como crime é um contrassenso só explicado por política econômica embasando ideologia falsa. Tanto que as companhias farmacêuticas passaram a vender estas substâncias no mesmo período de 100 anos no qual elas foram proibidas. Ou seja, a proibição do que vem da Ásia, África e América pré-colombiana criou um mercado para as companhias farmacêuticas ocidentais venderem seus equivalentes. A manutenção desta falsidade é o que impede o real enfrentamento do alcoolismo. Vai contra os interesses financeiros de norte-americanos e seus associados. Sem tomar um lado na política religiosa atual, é esta a razão que leva islâmicos a chamar os EUA de O Grande Satã. Basta andar, viajar, andar na rua pelos países islâmicos, para perceber que o estrago da obesidade, da nicotina e do alcoolismo é muito maior que da cannabis.

Dr Paulo Bittencourt

 

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