A herança do fascismo e nazismo é maior do que todos gostaríamos, mesmo nos dias atuais, quando ocorre uma guinada à direita em vários países de vários continentes. Como lidar com o fato de que muitas das descobertas da medicina foram feitas por médicos que simpatizavam e faziam ativamente parte de um regime tão maligno e criminoso quanto o nazismo?

Essa é uma questão complicada para a bioética até hoje. É impossível questionar a descoberta realizada, ou fechar os olhos para a existência do conhecimento que esses homens nos trouxeram. Toda área do conhecimento humano já foi maculada pela falta de ética e empatia humana. Não podemos negar a obra de arte que é  ” …E o vento Levou”, um marco para o cinema da época e um clássico sem igual, porém podemos refletir assistindo-o o quanto aquela obra ainda acalenta ideias racistas e de superioridade racial, assim como obras de Monteiro Lobato aqui no Brasil, que namoram com a romantização da escravidão do período colonial.

Na ciência ainda é mais difícil recusar a grandiosidade das descobertas. Como fechar os olhos para um conhecimento já adquirido? Não podemos ressetar nosso cérebro e apagar informações e mesmo se pudéssemos, deveríamos? Podemos ignorar a missão de salvar vidas e curar doenças por conta do método que um tratamento foi descoberto? Certamente que não, porém como não passar a impressão de que está tudo bem fazer qualquer coisas porque “os fins justificam os meios”?

A resposta para isso pode ser: não apagando a origem desse conhecimento, não tornando heróis aqueles que simpatizaram ou colaboraram com o regime do nazismo.

Na revista Neurology de Julho de 2019 se encontra um artigo sobre Helmut. J. Bauer, famoso neurologista reconhecido por suas pesquisas sobre Esclerose Múltipla. Bauer morreu em 2008, com 93 anos. Foi dono de altos cargos dentro de universidades de renome e dois premios ligados a pesquisa sobre Esclerose Múltipla levam seu nome.

Helmut J. Bauer não foi condenado por crimes de guerra, como foram outros médicos, mas esconde em seu passado ligação voluntária com a SS, ocupação de casas e roubo de arte, estudos eugenistas e pesquisas sobre armas biológicas. Porém, ao fim da segunda guerra, não foi julgado e pode continuar como se nunca tivesse feito nada de errado no passado. Outro nome muito conhecido é Hans Asperger. Em muitas narrativas, heroiza-se Hans como alguém que lutou ativamente contra o nazismo, enquanto artigos científicos mostram que ele era a favor da política higienista, participou de campanhas de esterilização e eutanásia de crianças.

Nós falamos sobre as descobertas desses homens como se muitas delas não tivessem custado sangue e dor para tantas pessoas. Não devemos esquecer quem realmente deu a vida para que soubéssemos o que sabemos hoje. Não devemos apagar a barbárie que esses médicos, se não participaram, foram coniventes com.

Bruna Correa Antochevis Machado

REFERÊNCIAS

https://molecularautism.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13229-018-0208-6

https://n.neurology.org/content/93/3/109

https://www.bbc.com/portuguese/geral-49122992

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