Créditos de imagem: The National Interest.

O que pode conectar o Bombardeio do Natal de Hanoi com uma paixão de menino? Vamos lá, não é uma história tão longa. Aos 18 anos de idade fui acometido de uma paixão por uma linda, talentosa e sofisticada americana, chamada Alvorecer. Para ir atrás dela na Flórida, após o Natal de 1972, vendi roupas que havia trazido dos EUA no início daquele ano, meu acordeão Scandalli, emprestei dinheiro de amigos e abandonei uma homenagem que meu pai receberia na Câmara Municipal. Foram-se os primeiros jeans boca-de-sino de barra esfiapada, calças de veludo cotelê e camisas de veludo liso vistos em Curitiba. Eu havia passado 4 meses viajando nos EUA no início daquele ano, de leste a oeste e de norte a sul.

Chegando no endereço em Fort Lauderdale, logo ao norte de Miami, a casa estava fechada. Sentei-me no chão com minha malinha – mochilas não existiam – e refleti. Era 27 de dezembro de 1972. Amigos me esperavam depois da passagem de ano em Oxford, estado de Ohio, na Miami University, onde deveria estar Alvorecer, mas nunca mais eu a veria. Dois mil quilômetros por estrada, distância entre a capital de São Paulo e Salvador na Bahia. Porém, eu não tinha dinheiro para ônibus ou avião, e logo ao norte da Flórida o país estava mergulhado em uma daquelas tempestades de inverno bíblicas. Sem chance de ir para a estrada pedir carona.

Sentado ali, vem conversar comigo um barbudinho, enquanto a esposa espera no Citroen estacionado na casa ao lado. Gentis como muitos americanos na minha juventude, ouviram minha triste história e ofereceram um trato como eu já havia feito na outra viagem. Comum no país onde tudo se fazia por estas maravilhosas estradas. Iríamos para Chicago, 2300km de Fort Lauderdale. Muito mais perto de Cincinnatti, aeroporto mais próximo de Oxford, em Ohio. Com carteira válida de motorista, fluente em inglês e experiente em viagens, eu podia ajudar.  O carro era pequeno, com câmbio mecânico, lento, com assentos aquecidos. Então fomos para as autoestradas americanas. O tempo horroroso piorava a cada hora indo na direção norte. Chuva e frio se tornaram blizzards – chuva com gelo em flocos duros – neve, escuro o tempo todo. Viagem difícil, concentração absoluta. Embaixo do assento de trás, o real motivo de um menino brasileiro ser colocado no carro: um travesseiro de maconha da Jamaica. Cannabis sativa nos galhos ainda, dentro da fronha. Disfarce mais ridículo, impossível.

No rádio, uma das maravilhas dos EUA, as rádios de música com rock contínuo. O mais marcante foi que estava em curso a Operation Linebacker II, o bombardeio do Natal de 1972 das Forças Aérea e Naval no Vietnam do Norte. Foi acompanhado ao vivo na TV aberta pelo país inteiro, no nosso caso no rádio do Citroen. Todos americanos tinham amigos e familiares servindo no Vietnam, e a Linebacker II planejava forçar os vietnamitas à rendição, como os japoneses na 2ª Guerra. Levado a cabo entre 18 e 29 de dezembro de 1972, ficou conhecida como os “Ataques de dezembro” ou “Bombardeio do Natal”, uma campanha de aniquilação de Hanoi and Haiphong por fortalezas aéreas B-52. O maior bombardeio desde a 2ª Guerra Mundial.

Existiam 3 componentes no nosso consciente ali no Citroen aquecido: o tempo horrível, rock e bombas. Dividimos a direção e paramos só para gasolina e sanduíches. Umas 30 horas de escuro, frio, blizzards, postos de gasolina, e, no meu caso, medo da polícia. Pensava no meu álibi. Chegamos bem a Evanston, arredores de Chicago, onde passamos a virada de ano. Quando meus amigos chegaram das férias de volta à Miami University, peguei um avião no aeroporto O’Hare, na época o maior do mundo, e fui, já em janeiro de 1973.

Esta viagem rendeu outras boas e perigosas aventuras, que curaram a paixão. Hoje, eu entendo que isso pode ter sido uma armação. Os brasileiros amigos de Alvorecer, de Ponta Grossa, viriam a me fazer muito mal no futuro, e talvez a troca de uma paixão por carona para Chicago com um travesseiro de maconha não tenha sido coincidência.

Paulo Bittencourt

 

 

 

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