Créditos de imagem: New York Times.

O PAC, exame chamado Processamento Auditivo Central, realizado em clínicas de fonoaudiologia e otorrinolaringologia, é muito solicitado por fonoaudiólogas em crianças com dificuldades de desenvolvimento e aprendizado. Muitas destas crianças são suspeitas de TDAH, ou TDA, os famosos déficits de atenção. Um exame de processamento auditivo central anormal apoia o diagnóstico, ou pelo menos esta é a noção de muitos pais que submeteram seus filhos a este procedimento. O PAC muitas vezes não é coberto por planos de saúde. Fonoaudiólogos valorizam tanto este exame que já definiram até um DPAC, déficit do processamento auditivo central, uma doença não existente na Medicina. Uma ideia do que acham estes fonoaudiólogos está em

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/fonoaudiologia/processamento-auditivo-central-conceitos-e-intervencoes-educacionais/35022

Porém, quando tentamos avaliar a literatura científica sobre o PAC, vemos que existe pouquíssima evidência de sua real utilidade clínica. No estudo abaixo, mexicano,

Murphy-Ruiz et al. Arq Neuropsiquiatr 2013, 71:83-889. DOI 10.1590-282X20130172

os autores avaliaram crianças com dislexia, que demonstraram anormalidades quando comparados com controles sadios. Porém, na introdução os autores expressam o que muitos neurologistas pensam sobre o assunto: a função que este exame pretende testar só pode ser detectada por PET scans ou ressonância magnética funcional. Estes procedimentos de neuroimagem funcional  não são realizados rotineiramente em nenhum lugar do mundo, e não são realizados no Brasil nem mesmo para pesquisa. Embora os autores cheguem em várias conclusões e discutam inúmeros aspectos, não colocam em suas referências nenhum artigo que tenha comprovado o que alegam que o PAC mede. Ou seja, que realmente estejam medindo processamento auditivo central, o entendimento do que se fala para as crianças que ouvem.

Um estudo brasileiro avaliou o PAC e o SPECT, uma espécie de PET bem mais simples e barato, e não conseguiu estabelecer uma relação entre os dois exames. Porém, nem o SPECT nem o PAC são estabelecidos. Como já mencionamos, mesmo em PET e ressonância este exame é experimental, complexo, sem aplicação ou uso clínico e prático.

Luciane SauerI et al. Arq. Neuro-Psiquiatr 2006, 64 no.1 São Paulo Mar. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X2006000100022

Neste estudo da UNICAMP e em alguns outros que podem ser localizados na base bibliográfica da SCIELO, os investigadores assumem que o PAC é comprovado. Porém isto não é verdade. Uma busca mais cuidadosa no PubMed, a mais respeitada base internacional de dados de ciências da saúde, mostra que profissionais da saúde acreditam tanto no exame que até já aplicam a doença derivada do exame, o distúrbio do PAC em pacientes geriátricos, idosos, que perdem audição por presbiacusia.

Por outro lado, em um dos dois únicos estudos internacionais publicados por neurologistas infantis, no caso italianos,

Guzzetta F et al. Dev Med Child Neurol. 2011 53:1085-90. doi: 10.1111/j.1469-8749.2011.04084.x. Epub 2011 Aug 12.

os autores colocam claramente que o PAC, derivado de um exame mais antigo chamado de potencial evocado central (P300), não tem relevância clínica estabelecida. De 246 revisões bibliográficas da base PubMed publicadas com resumos, nenhuma mostra a base científica deste exame do processamento auditivo central. Ou seja, nenhum estudo estabelece sua relevância em nenhum grupo de pacientes, seja pela via de estudos de imagem, neurofisiologia, epidemiologia, neurologia, anatomia, ou em animais de laboratório.

Dr Paulo Bittencourt

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