A história de como eu engordei vem do fim da infância, início da adolescência. As fotos ilustram 1986 e 2018. Agora, médico que trata distúrbios do apetite como um problema de saúde geral e mental, entendi melhor como as coisas se sucederam. Observei a vida da família dos meus pais, da minha própria família, e o que ocorreu com todos nós, além de inúmeros pacientes e colegas. Fazem agora 20 anos que fundei o Projeto Saúde, uma parte da minha clínica devotada exatamente a este aspecto da saúde neurológica.

O culpado de nossa obesidade foi a cultura nutricional familiar. Especialmente o grande excesso de ingesta calórica com gordura, óleos vegetais, e sal. O ganho de peso aparece obviamente em fotografias e em doenças vasculares e metabólicas quando as duas famílias estavam montadas. Nesta situação, nos anos 1960, meu pai desenvolveu hipertensão arterial maligna e morreu após 13 AVCs entre os 33 e 47 anos de idade. Trinta anos depois eu desenvolvi hipertensão arterial maligna, controlada com mais sucesso devido ao progresso da Medicina. Exatamente nas mesmas fases da vida das duas famílias, de meus pais e minha, com 30 anos de diferença, as fotos mostram as crianças gordas. Tem a mesma origem minha hérnia de hiato, que apareceu na adolescência, e um grande excesso de vômitos de um de meus filhos ainda bebê. Refluxo gástrico é consequência de excesso de plenitude gástrica.

Como eu engordei parece relacionado com o que é comum às duas famílias: a presença de empregadas de tempo integral, também nas férias e feriados nas casas de praia com geladeiras cheias. Muito pão, leite, derivados, todo tipo de creme. Cafés da manhã e da tarde com leite, chocolate, pão, geleia, queijo, presunto. Almoço e jantar com as combinações de arroz, feijão, batata e carne, seguidos de algum bolo no caso da família de meus pais. Rodadas de massa, pizza e churrascos no caso da minha família. Grandes jantares e festas, com sobremesas e bebida alcoólica, com convidados, na casa dos meus pais. Empadões de camarão e carne, peixe ou frango ao forno com batatas assadas, douradas com manteiga. Bolos enormes de chocolate, creme, muito ovo, nozes, pudins e quindins. Tudo era motivo para festa: aniversários, Páscoa, Natal, dia disso, dia daquilo, visitas de amigos, domingo, e assim por diante.

Alguns poucos anos atrás a mulher que foi empregada da casa dos meus pais me mandou de presente o empadão de camarão que eu adorava quando era adolescente. Um pedaço moderado foi seguido de um mal-estar com diarreia pelo excesso de gordura, com o qual não estou mais acostumado. Quando ela cozinhava para nossa família, eu já era nadador, e engordava 1 kg por mês entre abril e setembro. As piscinas eram frias. Emagrecia no mesmo ritmo quando voltávamos a nadar 3-6 horas por dia entre setembro e março. O como eu engordei já começava nesta época, o inverno, os aquecimentos, a “ginástica” e outros esportes não eram suficientes para manter o peso. Ninguém nunca sugeriu que deveríamos diminuir a ingesta calórica.

 

Como eu engordei também tem a ver com o fato de que era barato comer fora, o que ocorria pelo menos uma vez por semana no caso dos meus pais, bem mais na minha família. Santa Felicidade e restaurantes de comida do mar no litoral no caso dos meus pais. Pizza e churrascarias no caso da minha família. E tudo cheio de sal, claro, como é típico na dieta lusitana, seguida pela absoluta maioria dos envolvidos, ou das envolvidas. E a rotina das famílias era fixa. As mulheres cuidavam da cozinha. Existem relatos de que meu pai ia comer e cozinhar na casa de amigos, pois não tinha este espaço em sua própria casa. Na minha família, nesta circunstância, nunca nem tentei mudar a rotina. As coisas eram do jeito da patroa e da empregada.

Dr Paulo Bittencourt

 

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