Créditos de imagem: Obsidian Portal.

Muitos tem fogo na cabeça, e, veja, não é nem um nem dois. Basta olhar nas academias, nas ruas onde as pessoas correm e andam de bicicleta, quadras esportivas, até mesmo na saída dos vestiários de esportes aquáticos. A quantidade é grande: gente que sente fogo na cabeça e anda com bandas e toalhas enxugando a água que verte, vindo do topo da cabeça, como uma fonte natural.

Lembro perfeitamente da primeira vez que tive um ataque destes. Eu trabalhava em Londres, aos 27 anos de idade, era o verãozinho deles; lá qualquer temperatura acima de 20 graus é demais. As construções são preparadas para o frio, e as pessoas andam de roupas grossas, gravatas e aventais. Era uma sexta-feira, eu estava de calça grossa, camisa de manga comprida, gravata, avental de médico com os bolsos cheios de instrumentos, andando para lá e para cá na parte mais quente do dia, após o almoço. Molhei toda minha roupa, precisei ir em casa trocar tudo.

Nunca mais parou. Precisei passar a sempre estar com roupa leve e compatível com o trabalho de médico; fui instalando ventiladores e ar condicionado nos meus ambientes.  Entendi por que meu pai já usava muita roupa de linho, calças e ternos. Já perto dos 50 anos vi um neurologista trabalhando de bermudas no verão de New York e fiquei maravilhado, mas só fui ter coragem de fazer isso em minha própria clínica agora perto dos 60 anos de idade.

Já aos 45-50 anos de idade eu saía do clube onde nadava cedinho, e ia ao Hospital Santa Cruz ver gente internada. Enfermeiras e médicos achavam engraçado eu estar vermelho e suando pelos corredores e postos de enfermagem, já cedo em Curitiba, nunca muito quente. Eu dizia que tinha tomado Viagra, pois todo mundo sabia que ficar com a cabeça vermelha feito um tomate era efeito colateral conhecido destes remédios. A vasodilatação é primeiro lá onde precisa mesmo, depois na cabeça, curiosamente.

O primeiro destes ataques de verter água pela cabeça pegando fogo, em Londres, foi testemunhado pelo neurologista colombiano Pablo Lorenzana. Quando fiquei surpreso e perguntei o que ele achava que era aquilo, ele disse que devia ser do hipotálamo, parte do cérebro que fica assim meio na saída, logo acima da hipófise. O hipotálamo controla os sistemas simpático e parassimpático, que realmente fazem a vasodilatação necessária para a vermelhidão e a sudorese no corpo todo. Porém, demorei para entender por que meu hipotálamo passou a fazer esta sacanagem comigo.

Aos poucos foi ficando claro que tinha a ver com temperatura corporal, que pode ser controlada com roupas, temperatura ambiente e exercício físico. Muitos médicos sempre acharam que fogo na cabeça poderia ser causado por bebida alcoólica, mas é óbvio que eu não bebia nem de manhã nem próximo da hora que tinha isso. Também não bebia assim continuamente, e através dos anos deu para ver que ocorria com calor corporal, mesmo em épocas de muito pouco ou nenhum consumo de álcool.

Claro que pessoas fazem relação do fogo na cabeça com ansiedade, até com bipolaridade. Deve ser uma relação presente, como todos sabem, mas não era o mais importante no meu caso. Também é genético: meu pai era famoso por ser calorento, vermelho, suar muito; também era brabo, até violento, tinha peso e pressão arterial muito acima do normal. Meus filhos são assim, tem calor demais, mesmo sem a brabeza e o peso do avô. Até um bem magrinho, sai de camiseta até uns 15oC.

Dr Paulo Bittencourt

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