Bittenca e Farah foram roqueiros pioneiros em Curitiba. Em 1973 a banda Alice Cooper atingiu seu ápice comercial, com os discos School’s Out e Billlion Dollars Baby chegando ao topo do Billboard americano e de estatísticas de vendas na Grã-Bretanha e outros países. Foi quando ocorreu sua única turnê mundial, que teve shows no Pavilhão do Anhembi em São Paulo em 30 e 31 de março, e 1º de abril de 1974. Alice é um membro sênior da ordem DeMolay, uma organização para-maçônica de jovens. Assim, seu show gótico, fantasmagórico era um teatro bem aprimorado para ter sucesso. No Brasil consta que chegou a comer uma galinha que havia acabado de matar, sangrando no palco. Os brasileiros pensaram que ele era um macumbeiro.

Luiz Fernando Farah e Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt eram jovens de 19 anos em 1973. Seus pais, médicos, haviam sido colegas de faculdade e ainda eram muito próximos. Farah era dono da única loja de discos de rock da cidade, chamada Wings, precursora da atual Savarin. Bittenca era figura bala Zequinha na cidade, filho de famílias tradicionais, nadador de competição e estudante de Medicina. Porém, era também professor de inglês. Assim ganhava dinheiro para cultivar o hábito de ir aos Estados Unidos todo ano, e voltar recheado de discos de rock.

Logo na primeira viagem, em janeiro de 1972, através do intercâmbio Paraná-Ohio, Bittenca trouxe 33 Lps, uma coleção tirada do lixo de duas moças de Cincinnatti que estavam se mudando para um college na California. Ali muito provavelmente estavam os primeiros David Bowie, Jethro Tull e Elton John vistos no sul do Brasil. Foi nesta viagem que Bittenca assistiu Tommy com o The Who em Los Angeles.

Admiradores de rock internacional, Bittenca e Farah viram uma oportunidade de se divertir e organizaram um ônibus para ir ao show de Alice Cooper no sábado 30 de março de 1974. Instalaram no ônibus o toca-fitas que ficava no porta-luvas do Fusca do Bittenca, assistido por caixas de som da loja do Farah. Fitas cassette com playlists gravadas especialmente dos discos de Bittenca e Farah tocaram a viagem toda. Saíram do ponto de embarque usual de excursões da época, na rua XV em frente ao então Colégio Santa Maria, ao lado do Teatro Guaíra. Foram e voltaram sem intercorrências, exceto as paradas para comer e banheiro.

O hotel era demais para o orçamento da gurizada.

O ônibus estava cheio de rapazes e meninas. Talvez uns 30. Não achei fotos. Na volta paramos para tomar banho de rio na estrada. Tudo com muito cuidado para não chamar atenção. O medo era da polícia, na época não existiam ladrões e assaltos como hoje em dia. Era a pior época da ditadura militar. Afinal, um bando de cabeludos vestidos de hippies não era bem o usual. A foto deste artigo é contemporânea, foi tirada em julho de 1973, quando eu tinha 19 anos. O Fusca está com a boca aberta e a tampa do bagageiro interno colocada ali. Os altofalantes foram usados assim muitas vezes para tocar música em lugares remotos.

Dr Paulo Bittencourt

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