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A relação entre o espiritismo e a maçonaria é estreita no Brasil. A psiquiatria, o espiritismo e a maçonaria, em especial em torno da família Isfer em Curitiba, foram tema do livro  “Canto dos Malditos”, de Austragésilo Carrano, que originou o filme “Bicho de Sete Cabeças”. Este assunto já foi abordado aqui, com a história de Francisco Raimundo Ewerton Quadros, talvez avô de Jânio Quadros.

http://www.dimpna.com/2017/10/06/ewerton-quadros-e-janio-quadros/

O Marechal Ewerton Quadros tornou-se o primeiro presidente da Federação Espírita Brasileira, seguido pelo mais reconhecido Dr. Bezerra de Menezes, médico. Espalhou-se a idéia que Ewerton Quadros possuía vasto conhecimento de Astronomia, História Natural e História Universal. Tudo leva a crer que tenha sido também maçom, desde sua proximidade ao Marechal Floriano até sua história de vida e as funções que o Exército lhe delegou, como o extermínio da burguesia curitibana e do Barão do Serro Azul na época da Revolução Federalista.

https://www.verdadeluz.com.br/espiritismo-e-maconaria-divaldo-franco/

A origem do espiritismo está em Allan Kardec, nome falso do pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail. Segundo o livro “Maçonaria e Espiritismo: Encontros e Desencontros” da editora Madras, ainda não foi encontrado o registro de Kardec nas lojas maçônicas francesas. Mas é certa a influência que o maçom Franz Mesmer teve sobre Kardec, que foi seu discípulo. Além disso, Kardec usa termos maçônicos em suas obras como “arquiteto” para se referenciar a deus, pedra angular, prumo, etc.

Mesmer é o criador do termo “magnetismo animal”, parte fundamental da teoria kardecista. Formado em medicina pela Universidade de Vienna, produziu uma onda magnética artificial em uma paciente em 1774. Fez a mulher engolir um preparado de ferro e passou ímãs no seu corpo. A mulher disse sentir ondas e melhorou da doença. Mesmer acreditou que não foram os ímãs, mas o seu próprio magnetismo animal que curou a mulher. Após ter falhado na cura de uma cega em Vienna, mudou-se para Paris.

https://en.wikipedia.org/wiki/Franz Mesmer

Abriu uma clínica e “curava” fazendo “passes magnéticos”, comuns nos centros kardecistas brasileiros. Passou a utilizar uma banheira cheia de água magnetizada com bastões de ferro para “curar” vários pacientes de uma só vez. No ano de 1784 o rei Luiz XVI nomeou uma comissão para estudar o fluido magnético de Mesmer. A comissão incluía o químico Lavoisier, o físico Guillotin, inventor da guilhotina, e até o cientista maçom Benjamin Franklin, aquele da pipa e do raio. A comissão logo descobriu que o fluido não existia, e que os benefícios dos tratamento eram devidos à imaginação. Novamente desmascarado, Mesmer voltou para Vienna e trabalhou na Alemanha e Suíça até morrer.

Outro importante difusor do espiritismo ligado à maçonaria é Arthur Conan Doyle, escocês de Edinburgo, de origem católica irlandesa. Nascido em 1859 e lançado ao mundo pelo alcoolismo do pai, Doyle foi educado por tios ricos na Inglaterra

https://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Conan_Doyle

em escolas jesuítas com rituais medievais, humilhantes, incluindo castigo corporal. Depois, já em escolas na Áustria, Doyle se tornou um místico espiritualista agnóstico. Sua amizade com Harry Houdini, o mágico americano, tornou-se ácida quando Houdini expôs fraudes de médiuns espíritas. Doyle preferia achar que Houdini tinha poderes supernaturais. O próprio Houdini se achava um hábil ilusionista. Morei alguns anos muito próximo à casa do “pai” de Sherlock Holmes, em Londres, na Baker Street.

James Braid, médico escocês, propôs o nome Hipnose para uma técnica derivada do mesmerismo e seus fluidos magnéticos. Abbé Faria, monge indiano e português contemporâneo de Mesmer em Paris, dizia que nada vinha do magnetizador, e tudo ocorria na imaginação. As pessoas melhoravam por auto-sugestão gerada em sua própria mente.

https://en.wikipedia.org/wiki/Hypnosis

Teorias do que se passa em hipnose se dividem em duas vertentes: a do transe de estado mental alterado, e a da pura imaginação e desempenho teatral. O debate violento era entre o neurologista Charcot e Bernheim, no fim do século 19. Charcot acreditava no estado mental anormal, principalmente em mulheres “histéricas”. Bernheim dizia que todos podiam ser hipnotizados, desde que suscetíveis à sugestão. Esta é a visão que permanece, mas na época Charcot estava em Paris e era muito influente. Foi deste debate que Freud, treinado por Charcot, começou com hipnose e desenvolveu a técnica da associação livre de idéias para interpretar o inconsciente, também em pessoas que tivessem esta suscetibilidade. Com a caríssima e prolongada evolução do processe psicanalítico, Freud chegou a sugerir que a hipnose pudesse tornar o processo mais rápido. Mas ele dizia que o ouro da psicanálise se tornaria uma liga com o cobre da sugestão hipnótica direta.

Nota-se então a relação entre todas estas maneiras de encarar e explorar o inconsciente humano, através da ilusão de pessoas que se deixam iludir, por outras que se especializam em desempenho teatral.

Dr Paulo Bittencourt

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