A relação do governo Bolsonaro e Paulo Freire é obscura. Jair Bolsonaro querer “expurgar” Paulo Freire das escolas brasileiras não faz muito sentido. Segundo Paulo Saldaña em ótimo artigo na Folha, são justamente os estabelecimentos que atendem a classe mais intelectualizada e o resto do mundo quem mais aprecia Paulo Freire. No Google Scholar ele é o único intelectual brasileiro entre os 100 mais citados do planeta, e só um de dois de qualquer lugar do mundo no campo da educação a figurar nestes 100 livros mais citados da ciência internacional.

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/01/na-mira-de-bolsonaro-obra-de-paulo-freire-e-pilar-de-escolas-de-elite.shtml

A impressão é que Paulo Freire foi transformado no bode expiatório do chamado ensino sectário, marxista, que levou ao fracasso do ensino no país, segundo a visão Bolsonaro. Talvez por que ele lembra Karl Marx fisicamente. Porém, os especialistas pensam justo o contrário do arrazoado nesta relação de Bolsonaro e Paulo Freire: são as escolas paulistas que formaram Luciano Huck, Roberto Setúbal e Fernando Meirelles que mais usam o chamado ensino de chão de escola, que valoriza os saberes dos alunos, a partir dos quais crianças e jovens aprendem.

A ideia entre especialistas no Brasil e no exterior é que Paulo Freire é muito mais uma evolução do Renascimento e do Iluminismo de Rousseau, Thomas Jefferson e John Stuart Mill, do que de qualquer corrente filosófica que pudesse estar ligada ao marxismo ou ao socialismo de esquerda. Ele não é o educador mais lembrado, pensado ou citado entre professores brasileiros. É muito mais influente no exterior que no Brasil. Por que esta relação do governo Bolsonaro e Paulo Freire?

A essência de Paulo Freire é a autonomia e a crítica ao conhecimento por parte de quem aprende. Quem aprende precisa progredir a partir do conhecimento que já tem. Pode parecer óbvio, mas não é o mais estabelecido como norma em nosso ambiente paternalista, onde as pessoas frequentemente acham que precisam ser instruídas, em cursinhos, ao invés de aprender por conta própria, destrinchar o conhecimento na prática. Paulo Freire está a meio caminho entre a filosofia da educação e a didática. Ele enxerga a educação como um estímulo à emancipação e à superação das diferenças sociais e econômicas.

Esta visão do ensino e do aprendizado também é a dos médicos da área neuropediátrica internacional.

http://www.dimpna.com/2018/12/28/educar-meninas-e-meninos/

Mas isso é o que todo mundo sempre soube. Meu bisavô Dâmaso Correa de Bittencourt já alfabetizava escravos no século XIX em Curitiba, para apressar e facilitar sua alforria.

http://www.dimpna.com/2017/09/09/damazo-correa-de-bittencourt/

Especialistas acham que o problema brasileiro é o ensino dos que vão ensinar, os professores. No colégio Santa Maria, em São Paulo, as meninas foram ouvidas e obtiveram horário para jogar futebol nas 3as e 5as, enquanto os meninos ficaram com 2ª, 4as e 6as. Nesta escola, é inaceitável que se entregue qualquer ensinamento sem uma consideração muito cuidadosa pelo que a criança já sabe.

Paulo Freire foi um teórico de esquerda, em certos termos. Ficou exilado pelos militares entre 1964 e 1980. Segundo o Google Scholar, A “Pedagogia do Oprimido” é a 2ª obra de educação mais citada do mundo, em 99º lugar, a única brasileira. O novo Ministro da Educação, Velez Rodrigues, é do setor que encara Paulo Freire como marxista-gramsciano. Veremos no que isso vai dar. É um paradigma falso. Terão outras razões se infiltrado na relação Bolsonaro e Paulo Freire?

Dr Paulo Bittencourt

 

Compartilhe este artigo: