Créditos de imagem: Bowman e Wellman.

A hora para uma criança falar ocorre dentro de um contínuo de desenvolvimento de muitos anos. Eventualmente resulta na fala de uma ou mais línguas, na escrita, leitura, digitação e tantas outras formas de comunicação verbal. Elemento crítico neste raciocínio é o mecanismo cerebral da Teoria da Mente, conhecido como ToM, Theory of Mind.

ToM é um sistema neurológico bem conhecido há 20 anos, localizado em 3 partes do cérebro de cada lado, na parte medial, próximas do corpo caloso, que fica entre e une os dois hemisférios cerebrais. São duas nos lobos frontais e uma no lobo parietal. Chama-se ToM por que é utilizado por humanos e animais superiores para criar uma teoria sobre o que se passa na mente do outro, daquele com quem a pessoa está interagindo.

Quando uma atendente está tentando vender uma roupa para uma freguesa, um psicólogo conversa frente a frente com um paciente, ou uma pessoa está tentando passar uma cantada em outra, elas engajam um ao outro através de olhares e atitudes. Cada um passa a tentar adivinhar o que se passa na mente do outro, para ouvir o que ele diz e entender o que ela faz; identifica a mensagem e responde através de atitudes e palavras. Pesquisas iniciais foram feitas em macacos nas Ilhas das Canárias há 100 anos, por alemães; há 40 anos americanos replicaram os experimentos, inventaram a expressão Theory of Mind, e desencadearam uma série de experimentos sofisticados em primatas e humanos. Como funciona e onde está o mecanismo da ToM rapidamente se estabeleceu através de PET scan, EEG, ressonância magnética funcional e eletrodos intracelulares.

O mecanismo da Teoria da Mente começa a operar em crianças aos 9 meses de idade, quando elas passam a brincar sentadas. É em cima deste mecanismo de comunicação não-verbal que se desenvolve a fala, para facilitar a interação com o interlocutor. Portanto, para uma criança falar ela precisa brincar sentada com um interlocutor com quem está engajada em comunicação prolongada. Ou seja, para a criança falar o interlocutor precisa estar engajado em comunicação com a criança, no nível cognitivo da criança, fazendo algo que a interesse o suficiente para manter sua atenção prolongada.

Para a criança falar o interlocutor precisa ficar quieto, é óbvio. Uma conversa é semelhante a um aquecimento de jogo de tenis. O jogador vê o que o outro faz e se coloca na posição correta, virado para o lado que vai receber a bola. Faz o movimento todo para devolver a bola no local que o outro espera; é um diálogo, não uma guerra ou a final de Wimbledon. Da mesma maneira que se joga tenis em quadras, tenis de mesa em mesas, squash em outras quadras, uma conversa com um bebê de 9 meses precisa ocorrer nas condições do bebê. Só depois de bastante tempo ali na interação engajada é que vem a necessidade da fala.

Dr Paulo Bittencourt

Imagem: Bowman e Wellman 2014, www.researchgate.net

Neuroscience Contributions to Childhood Theory of Mind Development · January 2014. In: Contemporary Perspectives on Research in Theory of Mind in Early Childhood Education, Chapter: 9, Publisher: Information Age Publishing Inc., Editors: Olivia N. Saracho, pp.195-223

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