Créditos de imagem: Mark Leniham AP.

O fim do Village Voice é uma tristeza e sinal de novos tempos. Já na primeira vez que aportei em New York, aos 18 anos de idade, deixei meu grupo de estudantes de intercâmbio no mid-Manhattan e me enfiei no Greenwich Village, indo atrás dos bares e shows indicados pelo Village Voice. Era a história ao vivo na origem dos beatniks e de Bob Dylan, depois ainda viria a germinar Velvet Underground e Lou Reed. Com a revista Rolling Stone, fizeram boa parte de uma geração rebelde, e com certeza a minha consciência nos anos 1970. Ou seja, montaram minha mente para sempre.

Nestes mais de 40 anos fui a New York mais de 4o vezes. Algumas vezes duro de ficar em albergue. Uma vez com minha querida afilhada Simone, deliciosa meia semana. Sempre com o Village Voice na mão para escolher onde ir. Na última passagem  por New York, para uma agenda médica, os tempos modernos se mostraram. Já no avião fui abordado por uma bela moça, uma simpática menina, me fez companhia toda a semana, em programas em Mid e Upper Manhattan. Com a idade isto ficou comum, sou boa companhia para passar liso pela imigração. Vimos Allman Brothers e Eric Clapton no Beacon Theatre e Fleetwood Mac no Madison Square Garden. Bilhetes muito caros. Sem contar com a aventura de procurar e achar o Met Cloisters, o pedaço medieval do Metropolitan Museum of Art incrustrado lá no norte da ilha, precisa um dia inteiro e muita perna para conhecer e apreciar. O resto foram programas dela, bobos e deliciosos.

A Greenwich Village virou há uns 30 anos um lugar chique e complicado, com as melhores galerias de arte, restaurantes e bares de New York, mas também dinheiro e drogas. Esta mistura, que passou de maconha e LSD para cocaína e heroína, deixou de ser o meu mundo.

Como em Curitiba, onde uma radio maravilhosa de rock é do mesmo grupo da TV Globo (!), o rock tomou conta de New York. Não é alternativo nem confinado. Está até na Broadway. David Bowie viveu e morreu em Manhattan. Minha New York é de andar a pé, 40 ou 50 quadras, uma por minuto, com qualquer tempo, para ir naquele ponto de arte, compras, comida ou entretenimento. Para isto servia o Village Voice, era ali que você achava onde ir. Foi onde eu vi pela primeira vez anúncios de camas d’água, foi a que tive no meu quarto em Curitiba um bom tempo, quando morava com minha avó.

E é daí que vem o termo “village”, tão utilizado em condomínios e todo tipo de atividade geográfica no Brasil. Como aconteceu com “impeachment”, o povo pensa que é francês, falam Világe, mas vem do gueto nova-iorquino de Lou Reed, Nico e Andy Warhol, que virou a Mecca do moderno rebelde em New York.

Dr Paulo Bittencourt

Image courtesy of Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna
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