A relação entre aleitamento materno, no peito da mãe, e desenvolvimento cognitivo, foi investigada por Seungmi Yang e colegas em um estudo epidemiológico internacional, envolvendo a McGill University de Montreal, a University of Bristol na Inglaterra, Harvard Medical School, Mother and Child Centre de Minsk, Bielo-Russia e a NeuroTrax Corporation, Medina, New York. Existe um credo popular e mesmo científico de que o efeito é positivo, ou seja, mamar na mãe melhora a inteligência. Embora generalizado, este conhecimento é baseado em estudos observacionais, que não são considerados definitivos, pois podem estar simplesmente apontando uma coincidência temporal ou um efeito externo não investigado. Estes autores realizaram um estudo de 16 anos de seguimento, randomizado por clusters,envolvendo uma população grande e muito diversa. Seu objetivo foi realizar uma intervenção, o aleitamento ou uma situação definida como de controle, e verificar a persistência a longo prazo dos benefícios cognitivos, que já haviam sido observados em idade escolar.

O estudo é muito forte metodológica e estatisticamente. Um total de 13,557 participantes (79.5% dos 17,046 randomizados) foram seguidos até 16 anos de idade entre Setembro de 2012 e Julho de 2015. Ao final a função cognitiva foi avaliada em 13,427 participantes. Foram avaliados 7 domínios cognitivos e um escore global. Técnicas estatísticas muito avançadas foram utilizadas, inclusive para compensar por problemas de adesão ao aleitamento. O seguimento de 16 anos foi semelhante no grupo de tratamento (79.7%) e controle (79.3%). As crianças que tiveram aleitamento não mostraram diferenças estatisticamente significantes com os controles. Após todos ajustes estatísticos os escores verbais e de memória foram levemente superiores no grupo de aleitamento. Crianças que foram exclusivamente submetidas ao aleitamento no peito por mais que 3 meses tiveram 3.5-pontos a mais (95% CI 0.9±6.1) de função verbal do que as crianças aleitadas por menos do que 3 meses, sem diferenças nos outros domínios.
Não houve benefício de aleitamento em função cognitiva global, somente em função verbal, aos 16 anos de idade. A melhor função verbal foi consistente com os resultados na escola inicial, mas foi bem menor na adolescência.

Yang S, Martin RM, Oken E, Hameza M, Doniger G, Amit S, et al. (2018) Breastfeeding during infancy and neurocognitive function in adolescence: 16-year follow-up of the PROBIT cluster-randomized trial. PLoS Med 15(4): e1002554., 2018

Dr Paulo Bittencourt

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