Seja na perspectiva científica ou de ética médica no Brasil, a questão células tronco foi um evento além da minha visão. Talvez a explicação para minha lentidão em captar sua importância seja explicada pelo percurso profissional. Minha decisão de fazer Neurologia ocorreu em 1975, durante a faculdade de Medicina em Curitiba. Em 1978, já em Londres, envolvi-me com epileptologia por conveniência financeira e operacional; o interesse eram drogas que modificavam a função do sistema nervoso central.
Nesta época tive contato com John Newsom Davis, um dos neurologistas pioneiros da imunologia. Como residente cuidei dos primeiros pacientes a receber altas doses de corticóides, plasmaferese, azatioprina e ciclofosfamida. Newsom Davis aplicava aos pacientes o que estava sendo feito no Guy’s em Londres, em Cambridge, Oxford, Stockholm, Baltimore, Boston. Até radiação de corpo inteiro era utilizada para tratar doenças imunes. Nunca soube que a poucas milhas, em Harrow, estava o mais inovador grupo de imunologia do planeta, coordenado pelo único brasileiro de nascimento que até hoje ganhou um Nobel de Medicina, Peter Brian Medawar.
Lance EM, Kremer EM, Abbosh J, Jones VE, Knight S, Medawar PB. Intensive immunosuppression in patients with disseminated sclerosis. E. M.
I. Clinical response. Clin. exp. Immunol. (1975) 21, 1-12.
Mas eu não estava prestando atenção; tinha duas carreiras profissionais e neuroimunologia era uma parte da carreira clínica. A científica era devotada à epilepsia e farmacologia clínica do sistema nervoso central. Esta foi uma época sem comitês de ética ou comitês de ética em pesquisa. Médicos eram policiados pelos outros em torno deles. Havia grande preocupação ética e humana, tão pouco tempo após os holocaustos nazista e soviético, durante as ditaduras brasileira, argentina, chilena e uruguaia. A Europa estava divida pela Cortina de Ferro, havia ditaduras de direita na Espanha e Portugal, economias fechadas, pobres, como se a 2a Guerra Mundial não tivesse terminado. The Cold War.
O trabalho de casa do médico hospitalar e científico tinha que ser 100% correto senão mais adiante tudo vinha por água abaixo. A ciência na qual seu trabalho era baseado tinha que ser perfeita, como um argumento legal. Os britânicos entendem que todos devem ser pessoas corretas, justas; que devem fazer anotações, relatórios, evoluções, em lingua fluente.
Médicos em certos países nórdicos e em poucos hospitais norte-americanos estavam muito além do resto do mundo em conceitos clínicos e farmacológicos. Voltei para o Brasil achando normal tratar imunológicamente doenças que aqui eram consideradas degenerativas, e tratando com antivirais herpes simples e herpes zoster. Aqui nunca ninguém tinha jamais ouvido falar de antivirais. Outras coisas eu fazia mais simplesmente, de maneira mais barata do que aqui. Por exemplo, só pedia TSH, ou só cultura de urina, ou só FAN. Aqui todos pediam todos os hormônios de tireóide, o parcial de urina junto com a cultura e células LE junto com o FAN. Os europeus aprenderam com as guerras a fazer tudo do jeito mais barato possível.
Aos 28 anos de idade, explodindo na cena médica internacional, me envolvi com uma prática clínica complexa em Curitiba, inclusive a epidemia de AIDS. Um artigo na revista do Conselho Regional de Medicina foi um dos primeiros a tratar do estigma e preconceito na prática médica.
Bittencourt PRM e Sandoval PRM. AIDS, estigma e ética médica. Arquivos do Conselho Regional de Medicina do Paraná 20: 39 – 41, 1989
São 2 tipos diferentes de ética médica no Brasil. Uma cuida de problemas com pacientes e médicos, burocracia de registros, receitas, diplomas, títulos, propaganda. Foram estabelecidos conselhos federal e estaduais nos anos 1950 e 1960. Julgam a conduta dos médicos, conduzem o código de ética, como uma justiça administrativa.
Ética em Pesquisa apareceu mais tarde do que a estabelecida ética médica no Brasil, pressionada por testes terapêuticos. Já não existiam mais voluntários na Europa e EUA. Regras de ética em pesquisa estavam sendo estabelecidas em um movimento empurrado pelas companhias farmacêuticas, que não queriam se sujar com a ética nazista, ainda tão próxima.
Uma lista das minhas publicações nos primeiros 8 anos de Brasil está abaixo com os números originais do currículo. Estão somente as baseadas em pacientes, publicadas em inglês, para se ter uma idéia do que era publicar sem um comitê de pesquisa na vizinhança. Eu era o responsável pela decisão sobre a ética de cada projeto. Foram as primeiras séries clínicas brasileiras de esclerose múltipla, Alzheimer, os primeiros testes terapêuticos de drogas antiepilépticas, uma das únicas series de infartos medulares até hoje. Um grande número de pessoas começou a trabalhar em torno de mim no Hospital Nossa Senhora das Graças, Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, na pequena clínica da Rua Padre Anchieta, e em outras pequenas clínicas em Curitiba, associadas com outros pesquisadores em outros locais, internacionalmente.
Internacionalmente ocorria um movimento pró direitos humanos em geral, no Brasil muito menor devido à influência militar. Mas um pouco de energia se transferiu para o desenvolvimento da ética médica no Brasil. Em poucos anos comitês de ética em pesquisa foram estabelecidos em todo o mundo. Eu fui um protagonista desta situação da ética médica no Brasil; estabeleci parâmetros de morte cerebral no território nacional; estabeleci o primeiro comitê de ética do Hospital Nossa Senhora das Graças; minha empresa privada, hoje a Dimpna, fundada como Unidade de Neurologia Clínica em 1989, foi a primeira empresa privada brasileira, e a quinta entidade pública ou privada no país, a ter uma Comissão de Ética em Pesquisa Clínica, em 1990, pioneira absoluta no desenvolvimento de ética médica no Brasil. Minha empresa providenciou as finanças e estrutura da comissão, a única do Paraná durante muitos anos. Funcionou sob minha responsabilidade, autorizada pelo Conselho Nacional da Saúde, por 17 anos.
Este currículo de intenso envolvimento com a ética médica no Brasil não teve importância quando um grupo montou uma brigada de guerra e começou com um position paper em papel e na internet, em nome da Academia Brasileira de Neurologia e seu comitê de ética, dizendo que havia algo de errado entre a ciclofosfamida e a Unineuro e as escleroses, amedrontando pacientes e neurologistas do país inteiro. Uma das companhias farmacêuticas implicadas diretamente na subvenção desta conspiração, a Sanofi, mantém longa e esreita relação com o Ministério da Saúde; havia gasto 20 bilhões de dólares no mesmo mês para comprar a companhia que tinha os direitos do alemtuzumab, a Genzyme Corporation.
Esta trama já dura 20 anos, durante os quais um enorme número de pessoas morreu ou ficou incapacitada por utilizarem remédios inúteis e tóxicos para doenças tão graves. Mudou a história da neurologia. Os vilões originais desta curra da ética médica no Brasil, são Ricardo Pasquini, Affonso Antoniuk, Renée Dotti e Heinz Herwig, e um pouco da história está contada em outros artigos neste site, nos livros Pseudoquimera e autoimunidade e Sklera and chimera, na amazon.com.
PRM de Bittencourt
Publicações em inglês 1982-1990, numeradas como no original no Curriculum Vitae
17. Bittencourt PRM, Gorz AM, Silvado CES. Barbiturate withdrawal or replacement in epilepsy. Acta Neurologica Scandinavica 70: 246, 1984
18. Bittencourt PRM and Silvado CES. Oxcarbazepine, GP-47779 and spasticity. Lancet 2.8456: 676, 1985
25. Bittencourt PRM, Padilha S, Mazer S. Simple and safe heparin regimen for acute ischaemia. Arquivos de Neuro Psiquiatria 44: 32-37, 1986
26. Gorz AM, Silvado CES, Bittencourt PRM. Barbiturate refractory epilepsy: safe schedule for therapeutic substitution. Arquivos de Neuro Psiquiatria 44: 225-231, 1986
27. Bittencourt PRM, Gorz AM, Oliveira TV, Mazer S. Neurocisticercosis: conceptos básicos de clínica, diagnóstico y tratamiento (Parte I). Acta Neurológica Colombiana 2: 11-15, 1986
28. Bittencourt PRM, Gorz AM, Oliveira TV, Mazer S. Neurocisticercosis: conceptos básicos de clínica, diagnóstico y tratamiento (Parte II). Acta Neurológica Colombiana 2: 11-15, 1986
34. Bittencourt PRM, Bigarella MM, Mäder MJ, Dóro MP, Gracia CM e Marcourakis TM. Cognitive functions of epileptic patients on monotherapeutic regimens and healthy controls. Epilepsia 28: 582, 1987
35. Bittencourt PRM , Oxcarbazepine and spasticity: further observations. Arquivos de Neuro Psiquiatria 46 : 382 -384 , 1988
59. Oliveira SAV, Castro MJMO, Bittencourt PRM. Slowly progressive aphasia followed by Alzheimer’s dementia: a case report. Arquivos de Neuro Psiquiatria 47 : 72- 75 , 1989
62. Gorz AM, Ferraz E, Bigarella MM, Seixas RR, Mazer S, Marcourakis T, Ferreira Z, Bittencourt PRM. Efficacy and tolerability of vigabatrin. Jornal da LBE 2, suplemento 1:8, 1989
80. Bittencourt PRM, Gracia CM, Gorz AM, Oliveira TV. High dose praziquantel for neurocysticercosis: efficacy and tolerability. European Neurology 30:229-234, 1990 81. Fernandes JG, Bittencourt PRM. Editorial. Epilepsia 1990. Jornal da LBE 3:41, 1990
82. Bittencourt PRM, Costa AJ, Oliveira TV, Gracia CM, Gorz AM, Mazer S. Clinical, radiological and cerebrospinal fluid presentation of neurocysticercosis. Arquivos de Neuro Psiquiatria 48:286-295, 1990
84. Bittencourt PRM, Gracia CM, Gorz AM, Oliveira TV. High-dose praziquantel for neurocysticercosis: serum and CSF concentrations. Acta Neurologica Scandinavica 82:28-33, 1990
85. Gorz AM, Seixas RR, Mazer S, Bittencourt PRM, Oliveira TV, Kowacs PA, Marcourakis T, Ferreira ZS. Efficacy and tolerabiliby of vigabatrin. Epilepsia, 31(5): 598-692, 1990
86. Gorz AM, Bigarella MM, Mäder MJ, Ferraz F, Seixas RR, Mazer S, Kowacs PA, Bittencourt PRM, Ferreira ZS e Marcourakis T . Vigabatrin and cognitive function. Epilepsia, 31(5):598-692, 1990
87. Bittencourt PRM, Kowacs PA, Mäder MJ, Bigarella MM. Antiepileptic drugs and cognitive functions. Epilepsia, 31(5):598-692, 1990

Image courtesy of Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna