A inteligência de prematuros e seu desenvolvimento é uma questão que aparece várias vezes em uma semana na minha prática clínica. São crianças tão pequenas que somando a idade gestacional com o tempo desde o nascimento, ainda não completaram os 9 meses ou as 40 semanas antes daquele dia da consulta. Em todas estas crianças fazemos uma avaliação que dura quase 2 horas, entre um EEG com técnica especial neonatal, uma avaliação por uma enfermeira com muita experiência de medicina intensiva infantil, e a consulta comigo. Em todas eu chego ao que chamo de idade conceptual, que comparo com o que era originalmente a data provável do parto, para tentar chegar a uma avaliação que faça justiça à biologia daquele pequeno e frágil ser humano.

A grande pergunta é como será o desenvolvimento dos aspectos da função cognitiva que resultam na inteligência de prematuros. A maioria absoluta dos pais nem pensa em coisas mais complexas como distúrbios da motricidade ou comunicação. Até agora eu utilizava a história de complicações durante o tempo de tratamento intensivo para prever o futuro desenvolvimento cognitivo e a inteligência de prematuros. Agora foi publicado um estudo que muda um pouco esta conduta. Esta foi uma meta-análise, que vem a ser uma técnica estatística moderna, dos últimos 20 anos, já muito bem estabelecida na Medicina. Os pesquisadores, experts no assunto, refazem as contas e estatísticas de estudos já publicados, utilizando somente os estudos que preencham os critérios específicos.

Neste caso foram recalculados os resultados de estudos que avaliassem inteligência, funcionamento executivo e velocidade de processamento em crianças que na época do estudo estavam entre 4-17 anos de idade, e que houvessem nascido antes de 32 semanas de gravidez. Os autores chamam esta prematuridade de “very preterm” , muito prematuros, talvez não tão grave quanto o que nós aqui chamamos de prematuridade extrema, que é lá pela semana 28 de gestação. Curitiba, em especial, tem UTIs neonatais há quase 40 anos, e tem muita experiência do assunto. Nossos neonatologistas pioneiros já até se aposentaram. Mas a prematuridade extrema foi incluída no estudo.

Só foram incluídos estudos publicados em inglês em revistas científicas, as chamadas peer-reviewed, ou seja, todos os 60 artigos haviam passado por um crivo profissional intenso antes de sua publicação. Todos tinha uma população controle e não excluíam qualquer tipo de participantes. Foram avaliados 6163 prematuros e 5471 controles nascidos a termo em 60 estudos. Os prematuros tiveram escores  0.82 desvios padrões mais baixos em inteligência, 0.51 mais baixos em funcionamento executivo e  0.49 mais baixos em velocidade de processamento. São resultados estatística e clinicamente significantes.

Os fatores de prognóstico mais importantes, ou seja, a maneira mais simples de prever o desenvolvimento de função cognitiva e da inteligência de prematuros foi dado pela associação da idade gestacional e do peso ao nascimento com o tamanho do efeito estatístico em inteligência e funcionamento executivo nas crianças mais novas. A idade na avaliação não teve efeito. A conclusão simples dos autores é que crianças de prematuridade menor que 32 semanas tem deficits entre médios e grandes nestes 3 domínios cognitivos: inteligência, funcionamento executivo e velocidade de processamento.

Dr Paulo Bittencourt

Cognitive outcomes in children and adolescents born very preterm: a meta-analysis. Developmental Medicine and Child Neurology. C R Brydges et al, Perth, WA, Australia 2018

 

Image courtesy of USA Today