A depressão materna é comum por razões que todos conhecem, biológicas e psico-sociais. Em nosso meio, onde predominam ideias religiosas e espirituais, este é um campo cheio de preconceitos, que não são o foco deste artigo. Embora seja de conhecimento geral que depressão materna na gravidez tem consequências graves e muito claras para os filhos e filhas, são poucos os estudos que estudam suas consequências que realmente importam, as de longo prazo.

O artigo que passamos a discutir, publicado recentemente, é um de poucos que avaliaram longitudinalmente, através dos anos, crianças de portadoras de depressão materna na gravidez. Os autores utilizaram a ocitocina, um exame de sangue que dosa um hormônio, e a sincronia mãe-criança como marcadores biológicos e psico-sociais da neuro-biologia da criação e da filiação. Assim eles investigaram a resiliência da dupla mãe-criança na comunidade.

As crianças foram escolhidas no segundo dia pós-parto. Avaliação completa foi realizada no 1º ano e repetida no 6º e no 10º anos, com diagnóstico psiquiátrico, avaliação codificada de sensibilidade materna, envolvimento social da criança, sincronia mãe-criança, e capacidade da criança de externar problemas e situações.

A exposição à depressão materna na gravidez aumentou marcadamente a propensão da criança de desenvolver distúrbios eixo-1 do DSMV aos 6 e 10 anos de idade. Estas são as doenças mentais mais comuns e mais conhecidas, como as ansiedades, pânico, bipolaridades, stress pós-traumático e depressões. Houve atenuação da resposta de ocitocina nestas duas situações. Depressão materna piorou a sincronia aos 6 anos, mas aos 10 anos só a criança mostrava efeito da falta de sincronia. Diminuição de sensibilidade materna foi ligada à ocitocina na criança e à menor capacidade da criança de engajamento e sincronia, levando a mais problemas de externar e internalizar emoções.

Ocitocina e sincronia mãe-criança intermediaram os efeitos da depressão materna no comportamento das crianças. O efeito da depressão materna continua muito além da infância precoce. A relação da ocitocina com a sincronia e com a interação sublinham o papel da plasticidade na resiliência. Os resultados indicam a necessidade de seguir as crianças de mães deprimidas através da infância e de construir intervenções que melhores a sincronia em cada idade.

Dr Paulo Bittencourt

Priel ADjalovski AZagoory-Sharon OFeldman R Maternal depression impacts child psychopathology across the first decade of life: Oxytocin and synchrony as markers of resilience.

J Child Psychol Psychiatry. 2018 Feb 27. doi: 10.1111/jcpp.12880. [Epub ahead of print]

Image courtesy of Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna
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