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Apraxia de fala na infância talvez seja um termo que tenha vindo para ficar estabelecido na prática dos profissionais da saúde. Eu tive uma grande resistência em sua utilização, como parece ter sido o caso de grande parte de neurologistas, pois o termo em si é errado. A fala fica no hemisfério esquerdo, e as apraxias no hemisfério cerebral direito. Porém, o uso do termo por escolas importantes internacionalmente pode estar mudando esta situação. Imagino que conversas e discussões em congressos de fonoaudiolologia tenham justificado esta novidade fisiopatológica no que mostra a figura, que o cérebro é muito mais caracterizado por suas conexões do que por suas estruturas anatômicas. O conceito de Teoria da Mente, Theory of Mind ou ToM, cujo circuito envolve regiões dos dois hemisférios, também veio trazer uma nova maneira de encarar a linguagem.

Vários outros artigos neste site abordam linguagem, Teoria da Mente e fala. O Conselho Federal de Fonoaudiologia apoiou um evento e publicou as regras da Asha, Associação Norte-americana de Fonoaudiólogos, definindo a Apraxia de Fala na Infância como um distúrbio neurológico que atinge a produção motora dos sons da fala, reduz a capacidade da criança de produzir clara e corretamente sílabas e palavras, tornando sua fala significativamente limitada ou pouco clara.

http://www.fonoaudiologia.org.br/cffa/index.php/2017/10/apraxia-de-fala-na-infancia/

O Conselho diz que o diagnóstico é pouco conhecido no Brasil e, ainda mais agravante, não é estudado nas faculdades de Fonoaudiologia. Trata-se de um distúrbio neurológico motor da fala na infância, resultante de um dé­ficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala, na ausência de défi­cits neuromusculares, com reflexos e tônus normais no exame neurológico. Ou seja, sem sinais de Paralisia cerebral, por exemplo. Segundo o Conselho de Fonoaudiologia, pode ocorrer como resultado de impedimento neurológico de origem conhecida, associada a desordens neurodesenvolvimentais complexas de etiologia conhecida ou não, ou como um distúrbio neurogênico idiopático da produção dos sons da fala, sem causa de­finida. Na Apraxia de fala na infância, ocorre um dé­ficit no planejamento e/ou programação dos parâmetros espaço-temporais das sequências de movimentos e que resultam em erros na produção da fala e prosódia.

Nós neurologistas sempre chamamos esta entidade de Afasia de Desenvolvimento, seguindo o conceito anglo-saxão e francês de Developmental Aphasia. Porém restringimos o uso aos pacientes nos quais não existe nenhuma doeça claramente associada, um conceito um pouco diferente do Conselho de Fonoaudiologia. Na verdade, não existe razão para mudar o nome de Afasia de desenvolvimento, mas não tenho conhecimento ou mesmo visão para saber se Apraxia de fala na infância vai persistir na nomenclatura médica. Um passo grande neste sentido pode ser observado no artigo Molecular Psychiatry https://doi.org/10.1038/s41380-018-0020-x A set of regulatory genes co-expressed in embryonic human brain is implicated in disrupted speech development, de Else Eising et al, um grupo que inclui Simon E. Fisher, ligado a várias instituições de primeira linha na Comunidade Europeia. Neste artigo fica comprovada a origem genética da síndrome de alguns pacientes, portadores de um distúrbio incomum e raro na prática clínica. A síndrome é esta, porém diagnosticada com todo o cuidado que os pacientes merecem. O texto do artigo caracteriza bem estes pacientes e as duas formas de origem genética da síndrome:

Most cases of developmental language impairments are likely to involve genetic complexity, resulting from the inheritance of multiple risk factors with small individual effect sizes [2]. Nonetheless, it has been established thatdisorders of speech and language sometimes occur in monogenic form. One relevant disorder that may be enriched for damaging gene variants of large effect size is childhood apraxia of speech (CAS), also known as developmental verbal dyspraxia. CAS is a rare severe developmental disorder characterized by difficulties with automatically and accurately sequencing speech sounds into syllables, syllables into words, and words into sentences with the correct prosody [4]. In CAS, it is thought that impairments in the neural planning and/or programming of spatiotemporal parameters of movement sequences result in errors in speech sound production and prosody. Diagnostic features of CAS include inconsistency in the types of speech errors that are made, and greater problems as the complexity and length of the utterance increase.

A mesma forma de dificuldade operacional de paradigma está ocorrendo com uma doença de idosos, chamada de Afasia Progressiva, uma variante bem definida e rara, que eu fui o primeiro a descrever no Brasil como parte da doença de Alzheimer ainda nos anos 1980. Devido à complexidade do diagnóstico nestes pacientes, envolvendo funções neurológicas complexas, predomina uma confusão similar entre profissionais menos qualificados e a população leiga, que aprende com o Dr Google.

Dr Paulo Bittencourt

 

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