Créditos de imagem: Greg Dunn, Philadelphia.

 

A teoria da linguagem chamada linguística cognitiva inicia com a observação de que em torno dos 9 meses de idade ocorre uma revolução cognitiva na criança, já avaliada em culturas tão diferentes como regiões isoladas do Nepal, Papua Nova Guiné, Chiapas no Mexico, assim como na India, Peru, Canada e Alemanha. A criança começa a adivinhar que os outros tem intenções, planos e vontades, e começa a utilizar o sistema chamado de Teoria da Mente. É quando os pequenos começam a dividir a atenção com outros, apontar, imitar e informar. Esta intencionalidade dividida, a habilidade de ler a mente dos outros, ocorre nesta mesma época em todas as culturas e forma a base do desenvolvimento da linguagem na teoria da linguagem baseada na utilização. Somente algumas crianças com autismo desenvolvem linguagem fora deste paradigma, com maiores dificuldades no estabelecimento dos mecanismos da Teoria da mente. Mesmo assim, quando desenvolvem linguagem, o fazem mais lentamente.

Categorias linguísticas como sujeito, frases nominais e objeto, surgem conforme a criança conecta o que ela já sabe daquele primeiro ano de vida com as palavras que vai ouvindo. Aparecem palavras isoladas e as chamadas grandes palavras, uma corrente de palavras ou morfemas que começam a ter significado. Assim, uma criança pode começar a utilizar “O que que é?” sem ter ideia analisada sobre como o interlocutor vai interpretar aquela construção. O adulto utiliza estas grandes palavras após analisar sua função linguística e cognitiva, e já imagina o que vai vir de resposta do interlocutor.

Sempre dependendo da frequência das palavras que as crianças ouvem, após as palavras isoladas vem as frases de nome, que só tem o sujeito e o verbo, e depois a colocação do adjetivo. Aos poucos mais palavras vão sendo inseridas nos espaços vagos, e complica-se a semântica, passando de coisas para ações. Este mecanismo já foi estudado com modelos computacionais e em crianças falando inglês, mostrando que precede o surgimento da morfologia da linguagem. Em inglês, alemão, russo e hebreu já foi verificado que a frequência do que ouvem é diretamente ligada com o que as crianças aprendem. Em estudos com gravações de 12 duplas de mãe e criança falando inglês, 52 estruturas de frase foram utilizadas em 51% de todas as verbalizações; 45% destas verbalizações começaram com uma de 17 palavras; 31% eram perguntas. Como regra geral, as palavras que a criança ouve com maior frequência serão as primeiras a ser gravadas e por ela utilizadas.

Em inglês os futuros do pretérito e as utilizações de compostos com ser e ter demoram mais para serem adquiridos, assim como o uso da segunda pessoa da conjugação, porque crianças e cuidadores são interessados em si próprios. Existem estudos em alemão que demonstram que aos 7 anos crianças incorporam o uso de pronomes próprios com maiúsculas, uma dificuldade específica daquela língua. Estudos com vídeos mostram que aos 21 meses de idade crianças aprendem a utilizar o transitivo mesmo com verbos novos; assim existem estudos em várias línguas mostrando o que vai sendo incluído no repertório infantil. Também está bem estabelecido que a compreensão da fala é um processo diferente da produção. Um aspecto fascinante são os erros que crianças fazem ao falar. Análise entre várias línguas mostra que são relacionados com a frequência do que elas ouvem, como no caso do infinitivo opcional e do uso do “mim”.

Um ponto crucial do paradigma da teoria da linguagem baseada na utilização é que um grupo de palavras significa mais do que somente as palavras. Ou seja, forma e construção tem mais significado que as palavras. Talvez uma ênfase em estrutura e sintaxe ao invés de construção do significado da linguagem seja relacionada com a teoria generativista advogada por Chomsky na segunda metade do século XX, que tem o paradigma da Gramática Universal com eixo crucial. Antes de Chomsky a teoria da linguagem mais corrente era a de Saussurre, chamada de estruturalista, vigente na primeira metade do século. A teoria da utilização e o paradigma da construção de significado vem ganhando terreno com verificações como a do uso dos pronomes determinantes The e A ou em inglês, que crianças incorporam aos 3 anos de idade, mas vai mudando de significado conforme a criança estende seus contatos com mais pessoas. Assim a linguagem se torna mais abstrata, complexa e flexível com o tempo de desenvolvimento e a exposição a interlocutores.

A autora abaixo resume seu artigo sobre a teoria da linguagem e a linguística cognitiva expressando que crianças iniciam com uma competência restrita de produção e compreensão de linguagem; sua produtividade linguística é diretamente ligada à sua experiência linguística; esta interage com a capacidade de processamento, o sistema linguístico que está sendo desenvolvido, e os objetivos de comunicação da criança. O desenvolvimento de uma gramática mais abstrata é lento, e diferentes níveis de abstração levarão a capacidades em tarefas diferentes. Passando por tudo que foi realizado desde o trabalho inicial de Brown, Slobin, Braine e Bruner nos anos 1970, a autora propõe que pesquisa futura em línguas muito diferentes do inglês pode ajudar a identificar os mecanismos de processamento verbais, a relação entre forma e significado, e a explicar as diferenças individuais de desenvolvimento.

ELENA LIEVEN Usage-based approaches to language development: Where do we go from here? Language and Cognition 8 (2016), 346– 368 . doi:10.1017/langcog.2016.16

 

Image courtesy of Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna
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