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A teoria da mente foi o objetivo do cuidadoso trabalho de JE Obiols e GE Berrios GE, do Departamento de Psicologia Clínica i de la Salut, Universitat Autònoma de Barcelona (Hist Psychiatry. 2009 20:377-92). Eles relacionaram as raízes históricas da teoria de mente com o trabalho de James Mark Baldwin (1861-1934), que consideram original e profundo. Porém iniciam com uma postura conceitual comum a escolas latinas de psicologia, que derivam da tradição humanista francesa, que levou à Psicanálise. Obiols e Berrios implantam a versão de Baldwin de teoria da mente em uma teoria coerente do desenvolvimento da cognição humana, com novos métodos de observação, ferramentas e protoconceitos como o ‘ejective-self’, a distinção entre o mental e o não mental, jogo e imitação.

Baldwin, na virada do século 19 para o 20, abordou a biopsicologia evolucionária, a política de idéias científicas, e a mudança da antiga para uma nova ciência psicológica, baseada na genética e na teoria da imitação. Os autores espanhóis acreditam que influenciou Jean Piaget, que acreditam ser outro importante contribuinte para o desenvolvimento da Teoria da Mente, abreviada na neurociência do século 21 como ToM. E então estranham a ausência de Baldwin da literatura de ToM.

A transformação da imagem darwiniana evolucionária do ser humano no século XX foi relacionada com sua menor inserção nas ciências humanas e sociais; biólogos da mente relutaram em captar sua essência na época de limpezas étnicas de todo tipo. Os opositores argumentam que a psicologia evolucionária justifica hierarquias sociais e políticas reacionárias e ideologias de raça e gênero. A resposta é evitar a “falácia naturalista”, acreditar que tudo que é natural é bom. O pomo de discórdia é que a diferença entre humanos e o macaco mais esperto parece grande demais. Em Descent of Man, 20 anos após a publicação de A origem das espécies, Darwin demonstra que faculdades humanas como raciocínio moral, simpatia por outros, beleza e música, pode ser vista em outras espécies primatas. Talvez em menor magnitude, mas com a mesma natureza.

A base da teoria da mente e comportamento de Piaget foi revisada por H Beilin e G Fireman no Adv Child Dev Behav. 1999, volume 27, páginas 221 a 246. Os autores são do Developmental Psychology Program, City University of New York. A teoria final de Piaget sobre as ações e as implicações das ações foram resultado de uma longa história, na qual a ação é a protagonista das afirmativas teóricas. É a ação a origem do conhecimento, em conjunto com a percepção e linguagem em papéis secundários. Ação é organizada. Primeiramente física, depois se torna internalizada e transformada em ação e representação mental, durante o período simbólico e semiótico sensorimotor do desenvolvimento da criança.

Outras teorias de desenvolvimento cognitivo colocaram a ênfase na representação mental, enquanto Piaget a subordinou  à ação e operação mental. Bertrand Russell diz que ele acompanha a distinção que Schopenhauer fez sobre representação e desejo. Piaget baseava sua ideia no desenvolvimento gradual da intencionalidade nas crianças, que ele ligava à consciência de objetivos e meios de atingi-los. Após o periodo sensorimotor a ação é limitada a funções semi-lógicas ou de uma só via. A reversibilidade lógica aparece aos 6-7 anos de idade, em operações que ele chamava de concretas.  A ação mental só se torna plena com o desenvolvimento de operações formais na adolescência.

A visão de Piaget dependia de raciocínio lógico, por exetensão das poucas observações da realidade realizadas por este biólogo, que não era profissional da saúde. Quase sempre um pai observando seus filhos e colegas de brinquedo. Com o tempo adicionou outras formulações lógicas como a teoria de categoria e a de funções. Na última teoria uma mudança mais radical ocorreu: uma lógica de significados para o desenvolvimento do pensamento lógico e a solução de problemas. A nova lógica de significados vinha da lógica do entailment de Anderson and Belnap (1975), da inclusão, baseado em processos inferenciais no período sensorimotor, introduzindo a noção de formas primárias de ação na infância precoce, propondo que existe uma dimensão inferencial para o desenvolvimento do conhecimento. A ênfase mudou para lógica qualitativa e intencional, desde um periodo quando a testagem da verdade e da realidade só era quantitativa e extensional.

A nova e tardia teoria de Piaget é mais próxima de correntes intelectuais hermenêuticas e semióticas baseadas na interpretação do que a realidade da verdade, apesar de Piaget ainda manter um arcabouço lógico. A questão que aparece é se as teorias de Piaget são na verdade metafóricas, ou baseadas em psicologia real. Esta dúvida sempre existiu. Uma revisão histórica indica correlação entre as mudanças fundamentais nos fundamentos das teorias de Piaget e as correntes lógicas da época. Todas parecem trabalhos em progresso, com indicação de futuro desenvolvimento.

Este artigo funciona em conjunto com 2 vizinhos neste site, sobre as teorias evolucionárias da mente e comportamento e sobre o paradigma neurocientífico recente do mecanismo cognitivo chamado Theory of Mind (ToM), que precisa ser traduzido com cuidado para Teoria da Mente.

Dr Paulo Bittencourt

 

 

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