Primeiro quero deixar claro que ao desenhar a direita religiosa brasileira, não preciso ser colocado na esquerda. Muito menos na esquerda radical. Este é um artigo escrito por um historiador das ideias, observador dos acontecimentos. Colocar alguém como eu na esquerda radical é um absurdo típico de caluniadores sem argumento intelectual e histórico.

Andrew Brown, no Guardian de 27 de outubro de 2017, vai ao coração da questão quando explica que João Paulo II passou sua última década aleijado pela doença de Parkinson, sem energia para a burocracia que o cercava. A cúria tornou-se poderosa, estagnada e corrupta, omissa com os padres que abusavam de crianças. O Banco do Vaticano oferecia serviços de lavagem de dinheiro. Segundo o jornalista Gianluigi Nuzzi, uma canonização custava €500,000. Foi em uma crise assim que Martinho Lutero separou todo um pedaço da Europa 500 anos atrás.

Em 2014 Steve Bannon, teórico de Donald Trump, fez um discurso apocalíptico no Vaticano, e convocou judeus e cristãos contra ateus e o fascismo islâmico; disse que a civilização está no início de um conflito brutal e sanguinário, que vai erradicar tudo que nós construímos em 3000 anos de civilização. O discurso era o avesso da ideia do Papa Francisco, que em sua primeira visita oficial fora de Roma foi a Lampedusa, a ilha onde chegam as dezenas de milhares de imigrantes da África. Como seus dois predecessores, Francisco é contra as guerras do Oriente Médio, opõe-se à pena de morte, odeia o capitalismo americano e os mercados internacionais.

A maior batalha da direita religiosa radical, incluindo a direita religiosa brasileira, é sobre moral sexual, divórcio e recasamento. Os católicos casam e se separam como o restante da população que os cerca. E não acham que estão fazendo nada errado. Estão se comungando nas igrejas mundo afora embora eles e seus padres saibam que não podem. Os ricos e poderosos podem até anular casamentos. Steve Bannon está no 3º. Newt Gingrich separou-se da mulher com cancer, teve um caso com uma católica enquanto casado com a segunda. Callista será a embaixadora de Trump ao Vaticano.

Em 2015 e 2016, Francisco fez dois sínodos sobre este assunto, e sua posição liberal ficou clara. Os que são contra Francisco pensam na teoria, e tem representação forte na figura de Odílio Scherer em São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Pensam que a Fé Católica é o último reduto de integridade intelectual. Esta corrente radical da direita religiosa brasileira na verdade é uma seita, um grupo minoritário na Igreja Católica, o mesmo do Arcebispo francês Marcel François Marie Joseph Lefebvre, excomungado por João Paulo II. Esta comunidade sofre de problemas demonstrados no passado e que persistem no presente: violência física e sexual com mulheres e crianças, escravidão, racismo, prostituição, só para início de argumento. No Brasil, é flagrantemente falsa a tão propalada defesa das mulheres. Em nenhuma das seitas envolvidas existem mulheres no poder.

As correntes filosóficas totalitárias de direita são muito semelhantes às de esquerda. Aí está incluída a direita religiosa brasileira. As raras mulheres que aparecem, como ocorreu na Coréia do Sul e no Myanmar recentemente, ou Dilma Rousseff no Brasil, estão em situação de síndrome de Estocolmo, retiradas de alguma situação de violência física, sexual ou moral. O grande líder internacional da direita católica e suas vertentes extremistas é o Cardeal Burke, o maior inimigo de Francisco, cuja mistura de anti-comunismo, orgulho étnico, e raiva do feminismo alimentaram a direita americana que apoiou Trump e tem uma visão muito especial do Oriente Médio e dos mercados internacionais.

Os israelenses, judeus ortodoxos e ultra-ortodoxos, se acomodaram com a facção Sunni do mundo islâmico, árabe, indiano e asiático, colocando o Irã shiita como um inimigo comum. Até a Al-Quaeda e o ISIS parecem agir bem na hora que Trump precisa desviar a atenção da investigação de Mueller. No Brasil e na política de Trump, existe em comum a questão pessoal racista e anti-feminina, que explode de dentro. Trump, Putin e vários brasileiros não conseguem dissimular, mesmo quando conversam com a primeira ministra Merkel.

Esta é a direita que se apresenta para as próximas eleições brasileiras, reformada depois de 50 anos do golpe militar de 1964. Foi reforçada pelo longo período energético e brilhante de João Paulo II, e perdeu muito com sua longa doença. A pressão aumentou e panela explodiu com Bento. Francisco veio organizar a sobrevivência, mas os radicais estão reclamando, pois seus feudos parecem ter sido a causa da podridão. Desta vez quem está com dificuldade de se organizar é a esquerda. A direita está tão óbvia que coloca artigos contra o Papa na Gazeta do Povo, ataca uma Ministra negra, protege Caetano Veloso, e comete atos que este artigo tenta explicar.

Dr Paulo Bittencourt

 

https://www.theguardian.com/news/2017/oct/27/the-war-against-pope-francis

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Estocolmo