A autofagia curitibana, a capacidade de destruir seus próprios produtos e seus próprios amigos, parentes e colegas, ao invés de protege-los, levando ao extremo as regras bíblicas de Caim e Abel, sempre foi a explicação para curitibanos nunca atingirem o estrelato de Pelé ou Bundchen, embora a cidade seja a mais sofisticada, talvez, do continente. A explicação está desenhada no artigo de José Padilha, o “mecanismo” – sociedades secretas  – que levam ao sucesso financeiro e burocrático as pessoas medíocres que são leais ao grupo. Ao mesmo tempo, criam mecanismos sofisticados que se aproveitam dos diamantes, os fora da curva, aqueles que se beneficiariam de um sistema baseado em meritocracia. Estes são atraídos, explorados e destruídos implacavelmente. Não são afastados, de maneira nenhuma, são criados, atraídos, seduzidos, e lentamente destruídos enquanto seu suco é extraído.

Porém, a autofagia curitibana é um método evolucionário falso, que leva macacos violentos e machos alfa ao domínio. Um domínio erigido sobre caixas de papelão. O resultado é o que está ocorrendo. As sociedades secretas sempre, eventualmente, se dedicam a atividades criminosas. Do ponto de vista antropológico e sociológico é fascinante observar como Anita e Neymar são barrados pela realeza carioca, mas forçam a porta do Olimpo e explodem por outros meios. Ou na nossa mediocridade, o outro lado da moeda: certos médicos que professam ser os melhores, a referência do Brasil e do mundo, políticos que usam cargos nacionais para fazer propaganda local, e o Conselhos de Medicina e Tribunais Eleitoriais não reclamam das evidentes violações. São os curitibanos que o “mecanismo” elege como seus preferidos, mas devido à evidente falsidade de suas habilidades, são aves de vôo curtíssimo. Profissionais fora da casinha, abatidos piando no galho por gaviões e águias paulistas e americanas.

Uma característica final do modelo da autofagia curitibana é o que ocorreu com Leminski e outros heróis locais, até meu pai e o Barão do Serro Azul. São glorificados depois de bem destruídos e seu espólio dividido. Tanto é que Dalton, assim como Dylan, Bowie e Richards, ficam longe do mecanismo. Poucos, como Jagger e McCartney, conseguem ficar próximos.

Dr Paulo Bittencourt