Créditos de imagem: www.gregadunn.com.

Durante décadas o paradigma dominante de memória recente na ciência cognitiva foi que o córtex pré-frontal é ativado para o armazenamento de memória de curto prazo, o que brasileiros leigos costumam chamar de memória recente. Este é o córtex cerebral que fica localizado por cima das órbitas oculares. Dali a memória é encaminhada ao hipocampo para armazenamento. A ideia predominante neste paradigma é que a atenção fazia com que este córtex ficasse ativo e aceso até que ele passasse a memória para o hipocampo, onde a memória ficaria definitiva, ou de longo prazo.

A minha maneira de entender traduz melhor a maneira internacional e científica de entender o paradigma da memória: ela se divide em memória operacional e memória armazenada, como em uma biblioteca: uma pessoa, uma escada e tempo para procurar livros e revistas que alguém precisa para escrever um artigo; coloca tudo em uma mesa; devolve quando termina. A memória operacional também é como uma RAM memory de computador; liga e desliga conforme a pessoa está acordada ou dormindo; a biblioteca é o hard disk. Na informática já existem mil detalhes: processadores, cabos, pentes, discos. No caso do cérebro ainda não se sabe como funcionam exatamente todos os detalhes, como é público e notório. Mas muitos conceitos já são antigos, e existem hipóteses sendo testadas. Nos tempos mais recentes, a pesquisa internacional mais avançada se preocupa mais com a transmissão do que com a localização dos dados. A linda figura de Greg Dunn enfatiza esta ideia.

Estudos de EEG  ( o velho eletroencefalograma!) e Magneto-EEG recentes, discutidos em artigos da Neurology Today de 5 de Janeiro de 2017, indicam outro cenário, diferente, daquele do primeiro parágrafo. Curiosamente, lembro uma saudável discussão há mais de 20 anos. João Radvany, neurologista clássico, propunha a hipótese pré-frontal, enquanto Esper Cavalheiro, neurologista experimental, de animais de laboratório, propunha o que hoje parece ser mais aceito, que não existe uma localização para a memória recente, que deve ser chamada de memória operacional. Ela é distribuída por todo o cérebro, através das conexões dos neurônios, as sinapses, que ficam facilitadas pelo uso mais frequente. Conforme o uso vai ficando mais definitivo, seja naquela pessoa ou na evolução da espécie, a memória fica definitiva. O papel do córtex pré-frontal, hipocampo e do lobo temporal mudou após a emergência de conceitos como o Default Mode Network e Teoria da Mente.

Este mecanismo, de plasticidade sináptica ligada à memória operacional, chamada de working memory em inglês, introduz um novo mecanismo, um novo paradigma, uma nova dimensão no pensamento sobre a memória. Nesta maneira de pensar, cada forma de memória operacional pode ser guardada em seu local especializado, a verbal no lobo frontal, a visual no occipital a sensorial no parietal, a auditiva no lobo temporal, e assim por diante. E cada grau de memória é trazido à tona conforme é necessário pelo grau de envolvimento com a memória operacional.

O paradigma da memória operacional difusa está muito mais de acordo com a moderna neurofisiologia, baseada em “evocar” memórias através de excitar os pathways, os caminhos de comunicação neuronais, os tratos neuronais, que são o objeto de estudo tanto dos projetos americanos quanto europeus do século 21. O paradigma do córtex pré-frontal, de mais de 20 anos atrás, era um resquício da época da neurologia antiga, quando todas as funções eram pensadas em sua localização. A atenção, talvez vinda de uma mente etérea, dirigia o córtex pré-frontal em uma época quando ainda se valorizava muito a psicanálise. Nesta maneira que está agora cristalizada, uma parte maior da mente fica no cérebro. Diminui um pouco mais a importância da mente que fica fora do cérebro, a religiosa e espiritual.

Dr Paulo Bittencourt