Créditos de imagem: Greg Dunnn.

Nos  últimos 15 anos ocorreu uma mudança radical no antigo campo da reabilitação neurológica, que era estática, conservadora, ligada à ortopedia. A mudança foi na forma de pensamento, no paradigma. Ocorreu uma evolução, no sentido de que é possível regeneração, recuperação, restauro, dos neurônios e da função neurológica. Várias formas de recuperação  neurológica vem sendo documentados, desde recuperação da mielina que recobre os neurônios até franca recuperação de funções que só podem ser de axônios. A reabilitação se torna dinâmica.

Esta mudança conceitual está estabelecida: existem instituições, principalmente americanas de primeira linha, que tem departamentos de “ restorative neurology” .  Algo como neurologia de reforma, retífica, ou talvez de restabelecimento, já que um objetivo comum aos projetos nesta área e o re-estabelecimento de função neurológica através do re-estabelecimento de comunicação entre neurônios.

Até muito pouco tempo atrás a recuperação de uma deficiência neurológica bem estabelecida era considerada uma fantasia, mais para milagre e charlatanice do que para ciência. Porém tanto na pesquisa em animais de laboratório quanto na clínica neurológica foram sendo observadas recuperações de função:  pernas e braços, bexigas e olhos, que voltaram a funcionar. Hoje a lista de situações clínicas nas quais pode se esperar uma melhora neurológica é crescente. Nós temos casos de recuperação de movimentos de pernas e braços em portadores de esclerose múltipla após tratamentos de células tronco autólogas hematológicas. Outros pesquisadores no Brasil e no exterior utilizaram as mesmas e outras células, obtidas por mecanismos variáveis, para produzir recuperação  de função em portadores de AVCs e derrames.

Uma boa parte dos esforços no sentido deste restauro neurológico tem ocorrido na área das pesquisas de células tronco, que, embora não seja de domínio público, é extremamente ligada à área de modulação imunológica. Muitas vezes, como é o caso do nosso tratamento para doenças auto-imunes, não se sabe se o que melhora o paciente é a presença das células tronco ou o efeito imunológico do tratamento associado.

Mas existem hoje em dia esforços em vários locais do mundo, com um certo pioneirismo para a California, para melhorar função neurológica através de um esforço conjunto de reabilitação e reparo, restauro e retífica, de uma maneira que com certeza não era prevista 10 anos atrás. É uma mudança radical no paradigma da neurologia clássica. A Dimpna tem orgulho de ser pioneira mundial neste campo, e tem interesse estratégico da empresa. No Brasil em especial, e na situação atual, os entraves para as pessoas obterem este tipo de tratamento são enormes. O principal é a antiga Reabilitação estática baseada na cirurgia ortopédica e em próteses e órteses, que deveria ter sido substituída por toxina botulínica, boa fisioterapia e hábitos de vida, 20 anos atrás. Bem estabelecidos, estes profissionais dominam o sistema público, muitas UNIMEDs, conselhos profissionais, tornando impossível progresso que não seja do seu interesse ou que eles mesmos não compreendam.

Na verdade, a reabilitação neurológica, como é óbvio, já deveria ter se tornado um campo de trabalho neurológico muito mais intenso e dinâmico com o advento da toxina botulínica 20 anos atrás, mas este foi um progresso que não ocorreu entre nós. Ainda olhamos com certa perplexidade e enorme tristeza pessoas se submetendo a cirurgias ortopédicas mutiladoras para espasticidade. O uso de próteses e órteses em demasia leva a progresso temporário e piora o resultado real de médio e longo prazo da reabilitação. A razão para este atraso só pode ser cultural. Neurologistas se comunicam de uma maneira que os pacientes não admiram, ou oferecem um prognóstico de progresso que as famílias não desejam. Então tudo continua como está.

O progresso da nova reabilitação, obviamente, passa por avanços científicos neurológicos. Como estas palavras acabam de dizer, o campo depende de neurologistas aprenderem nova neurociência e aplicarem a pacientes que no momento estão em uma estrutura dominada por ortopedistas, e já recusaram o enorme progresso da toxina botulínica 20 anos atrás. Esta nova neurociência vem das células tronco e dos transplantes, aplicadas ao sistema nervoso, e o campo está em evolução.

Dr Paulo Bittencourt