Créditos de imagem: Greg Dunn, Philadelphia.

O grupo de doenças ligado à esclerose múltipla passou por uma reviravolta nas idéias e na conformidade dos paradigmas de diagnóstico e tratamento nos últimos 2 ou 3 anos. De início, existem pacientes que nem estão doentes, suas lesões na ressonância não são nada, eles e elas precisam confiar mais em bons neurologistas clínicos e menos nas imagens. Outros pacientes tem outras doenças imunológicas, seja do espectro da neuromielite óptica ou das arterites, um labirinto diagnóstico complexo, no qual pacientes também dependem de bons neurologistas. Com o diagnóstico confirmado, precisa ocorrer um estadiamento da doença, como ocorre com câncer, pois raramente o neurologista recebe o paciente no início da doença. Na maioria das vezes a pessoa já tinha sinais e sintomas há um ou mais anos. O neurologista experiente consegue analisar o passado e definir se a esclerose múltipla é benigna, moderada, grave, ou muito grave. Se é de remissões e recidivas, ou progressiva, ou progressiva primária.

Este procedimento diagnóstico sempre foi necessário, era realizado em internamentos de 15 dias. Não é assunto para uma consulta. Muitos pacientes não tem uma  imagem dedicada para esclerose múltipla, outros não tem liquor, e assim por diante. Só nos pacientes das formas de recidivas e remissões, sem sinal de progressão, é que são indicados interferons, glatiramer acetato, azatioprina, fingolimod, natalizumab e alentuzumab. Nesta ordem conforme a doença for mais grave.

Se houver evidência de progressão, ou se a pessoa tiver alguma vontade de evitar a progressão futura que ocorre em 70-80% dos casos, o melhor é usar uma das quimioterapias. Só existem 3: metrotexate, mitoxantrone e ciclofosfamida. Eu tomei a decisão de escolher a última há 30 anos, por várias razões farmacológicas, que se mostraram acertadas. É a únicas destas 3 drogas que não deixa gravíssimas sequelas irreparáveis e tem limite de dosagem. Ou seja, precisa parar após 2 ou 3 anos. Pelo contrário. Nos últimos anos, temos notado que leva a um rejuvenescimento da medula óssea, que vem a ser o mecanismo que faz melhorar as doenças imunológicas. A sequela permanente é menopausa precoce nas moças, mas os rapazes não ficam estéreis. Muitos dos meus pacientes tiveram filhos depois de tratamentos de alta dose equivalentes a pequenos transplantes de células tronco. O limite de dosagem é enorme.

Contrário ao establishment farmacêutico internacional, quem trabalha com transplantes, como pode ser facilmente verificado nos trabalhos resumidos no nosso site inglês, recomenda que dose elevada de ciclofosfamida seja utilizada precocemente, em pessoas jovens e em doenças jovens. Não é difícil imaginar porque, e os resultados dos quase 800 casos de transplantes demonstram claramente. Deixar para utilizar as quimioterapias, seja de dose elevada, pulsoterapia ou transplantes, quando a pessoa já tem idade avançada e deficiência neurológica avançada, faz pouco sentido. Nenhum tratamento vai reverter a deficiência neurológica bem estabelecida. Mesmo a progressão de doença muito avançada pode não melhorar. E ainda é muito mais arriscado.

A hora certa de fazer o tratamento mais intenso é no início da doença, quando, já há mais de 10 anos, é possível se estadiar todo e qualquer paciente e prever o futuro.

Dr Paulo Bittencourt