Créditos de imagem: Parc Guell.

Oscar Nyemeyer pode ter feito uma brincadeira com o Museu do Olho dos curitibanos, que acham que estão no umbigo do mundo. O nome deveria ser Museu do Umbigo. Meu filho e eu já havíamos estado no umbigo do mundo e tido uma epifania quando dormimos com peregrinos de frente para a Basílica de Montserrat, em cima do morro, ouvindo sinos e cantos. Em Barcelona, no Parc Guell, subimos a escadaria ouvindo uma música que, só anos depois soubemos, era dos aborígenes australianos. E demos de cara com o olho do MON! Nas palavras de Robert Zimmermann em The best of Gaudí, 2002, página 41:

“At the top of the staircase stands a structure that is a tripod, a reference to the tripod that the oracle of Delphi sat on, and a rock, referring to the rock at the Sanctuary of Apollo that the Greeks believed was the navel of the cosmos, uniting the world above the ground with that below. Behind the tripod, just below the central column, is a resting place in the form of a shallow cave, providing, in summer, some welcome shade.”

Era neste local, um segundo umbigo do mundo escondido em uma sombra maravilhosa, que estava o músico e seu estranhíssimo instrumento. Uma ideia melhor da semelhança do olho do MON com o omphalon de Guell está em Interactive Panorama http://www.parkguell.es/tour/

A Wikipedia em inglês diz que no período clássico grego (510-323 AC) acreditava-se que Zeus tinha determinado que no local de Delphi estava o centro da sua “Grande Mãe Terra”. Ele mandou uma águia voar do leste e outra do oeste; quando seus caminhos se cruzaram sobre Delphi ele determinou onde estava omphalon, o umbigo de Gaia. O precinto sagrado de Apollo em Delphi era enorme, pan-helênico. A cada 4 anos a partir de 586 AC atletas  de todo o mundo grego competiam nos jogos Pítios, um dos precursores das modernas olimpíadas. Delphi era diferente pelas competições musicais. Embora os jogos em Olympia tivessem maior importância esportiva, Delphi tinha como cidade uma importância muito maior, daí ser o “umbigo”, o centro do mundo.

O Museu do Olho de Curitiba foi inaugurado em novembro de 2002 com o nome de Novo Museu, seguindo projeto de Oscar Niemeyer. Já havia no local um enorme quadrado de concreto rebaixado, datado de 1967, de Niemeyer. Pelas datas, é simples deduzir que o projeto do prédio antigo foi feito antes dos militares. Oscar morou em Paris entre 1967 e 1980, devido ao seu comunismo professo e suas ligações com os comunistas internacionais. Neste período manteve um escritório na Avenue de Champs Ellisée, e realizou obras em vários locais. É extremamente possível que tenha visitado a Grécia e Barcelona como um turista especializado. Ou quando recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias das Artes na Espanha em 1989. Com certeza percebeu a mesma conexão que foi óbvia para mim agora, com minha segunda profissão de historiador de ideias.

A nova estrutura do Museu do Olho, chamado MON, é elevada, quebra a monotonia da antiga. Com 70 metros de comprimento e 30 de largura, a base forma um tripé com uma parábola de cobertura, exatamente como Zimmermann descreve o omphalon de Gaudí, tudo apoiado em uma torre de 21 metros de altura. Em 2003 o nome tornou-se Museu Oscar Niemeyer. Embora não possuísse acervo, a visão dos criadores foi perfeita; menos de 15 anos depois, é um sucesso sob qualquer ponto de vista.

Porém, sua denominação popular, Museu do Olho, aceita por todos, não era a ideia do criador, que pode ter tido um lampejo mais clássico e profundo, e pode ter prestado uma homenagem maior a Curitiba e aos curitibanos, talvez preocupado com o seu Rio de Janeiro, rapidamente deixando de ser o umbigo do mundo.

Dr. Paulo Bittencourt