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Neste artigo vamos introduzir a ideia da alexitimia, e do auto-agenciamento. Biografias de eminentes neurologistas como Jean Martin Charcot comentam que eles terminaram suas carreiras no ridículo ao abordarem a histeria, como se este fosse um campo médico minado. Durante os 40 anos desde o início da minha formação neurológica, sempre tive um pesado viés psiquiátrico. Tomei cuidado como clínico, professor e supervisor de estudantes, residentes e outros profissionais da saúde, para restringir o uso da palavra histeria a uma área pedagógica, devido a aura depreciativa que foi sendo associada ao seu uso. Com o tempo, neste meu período profissional, “histeria” deixou de ser um termo médico, clínico, ou mesmo profissional. Desde que cunhada por Hipócrates por indicar um útero instável, ou seja, um termo eminentemente preconceituoso, histeria desapareceu ao fim do século XX.

Neste mesmo período a psicanálise como tratamento foi substituída pela psicoterapia comportamental cognitiva. Este grande avanço permitiu um approach científico aos problemas psicológicos das pessoas. Antes era impossível. Livrou-nos de uma teoria fantástica. Rapidamente se sucederam a neurologia do comportamento; a associação da síndrome da fibromialgia e da fadiga crônica com as doenças bipolares; os vários DSM, principalmente os III, IV e V, que tiveram grande impacto mundial. E finalmente caiu a a ficha do conceito da Theory of Mind. Já no século 21, veio o default mode network, e outros networks, e os neurônios espelho, mirror neurons. O leitor é estimulado fortemente a consultar a wikipedia para se informar sobre todos estes fascinantes aspectos da neurociência.

Estes avanços científicos permitiram o entendimento subjetivo do paradigma mente-cérebro, da consciência, e nos fizeram compreender o conceito da alexitimia e do auto-agenciamento. De como nossos movimentos e fala, por exemplo, são como que filiais bancárias que o lobo temporal direito, a matriz, precisa controlar. A moderna neurologia clínica, associada com ressonância funcional e PET, está providenciando evidências de que pacientes com distúrbios funcionais tem um distúrbio dos processos cerebrais da sensação subjetiva do controle das ações da própria pessoa pelo lobo temporal direito, a alexitimia. É pior nos bipolares, e nos que também tem maior dificuldade com a Teoria da Mente. Quem atende estas pessoas tem que entender todos estes paradigmas para poder ajudar estas pessoas. Uma boa referência para os especialistas está em Planetta and Miyasaki (Neurology 2016: 87:554-555).

O impacto do domínio deste conhecimento na prática clínica é grande. Meninos fazem de conta que tem enxaqueca, uma doença de meninas adolescentes. Meninos e meninas, pré-adolescentes fazem de conta que estão psicóticos, com alucinações típicas de esquizofrênicos, uma doença da juventude. A facilidade do acesso a consultas nos plantões e fins de semana, com famílias inteiras participando dos dramas do “doente”, aliada às séries da Netflix e aos estudos que cada um faz de suas doenças, produz delírios coletivos difíceis de destrinchar. A velha histeria sempre foi bem conhecida dos neurologistas. Uma das regras básicas era que justo os portadores de doenças seriam os que teriam sintomas e sinais que preferimos chamar psicogênicos, daí nosso respeito por todos os pacientes. Todos estes meninos e meninas devem ter alguma coisa, mesmo que não seja enxaqueca ou esquizofrenia. O difícil é navegar pelas águas turvas destas situações.

Dr Paulo Bittencourt