Em Curitiba, em 3 anos seguidos no início do século XXI,  faleceram 6 pessoas de morte inesperada ou suicídio, só contando a população do meu conhecimento pessoal, talvez umas 20 mil pessoas. Fossemos nós a Suíça, com seus 7,5 milhões de pessoas, teríamos que ter tido 375 vezes mais suicídios, ou seja, 4 por dia. Na época eu passei uma semana na Suíça, e lá não ocorreu nenhuma morte, muito menos por suicídio. Nossa classe média alta estava tendo 30 vezes mais suicídios que a Suíça. No relatório da Organização Mundial da Saúde o Brasil estava em 73º lugar, com 4 e a Suíça em 19º, com 17 suicídios por 100.000 habitantes por ano. Qual será a verdade?

Será que estamos tendo agora, 15 anos depois, já envolvendo grande parte da cidade, um fenômeno semelhante com a Baleia Azul e o 13 Reasons Why, que não estão sendo observados no resto do Brasil, do continente ou do mundo? Somos uma cidade de malucos? Ou melhor, de malucas, já que a maior parte são mulheres?

Suicídios são notoriamente escondidos e sub-notificados em países latinos, católicos e em desenvolvimento. Na religião judaica são negados. O caso Herzog foi notório. Dos casos com detalhes públicos, todos tem tratamento com benzodiazepínicos e/ou antidepressivos. Nos últimos 20 anos emergiu um paradigma internacional que indica que as depressões crônicas são bipolares. O antidepressivo e o benzodiazepínico podem estimular comportamentos repetitivos em bipolares que deveriam estar medicados de outra maneira. São idéias obsessivas, que se repetem compulsivamente, aquilo gira e gira na cabeça da pessoa, até que ela executa. O problema é que o doente exige antidepressivos e, muitas vezes, o benzodiazepínico.

O fenômeno pode ser melhor entendido através de uma analogia grosseira, ríspida até. Se uma mulher vai a um oncologista tratar seu câncer de mama, ela faz o que é mandado. Tira um pedaço da mama, faz radioterapia no resto, queima a pele, faz quimioterapia. Não discute dose, os parentes podem até discutir se o convênio paga, mas outros detalhes são relevados. Quando uma pessoa vai tratar sua depressão, quer resolver tudo ela, diz que de sua cabeça ela entende. Já entra dizendo que tem depressão, quer fluoxetina, talvez alprazolam ou clonazepam, quer a receita, como se estivessem em um “receitório”. As pessoas tendem a abandonar partes do tratamento assim que voltam a um grau de normalidade. Tal médico é caro, outro é chato e autoritário. E lá se vão onde possam cuidar de sua cabeça da maneira que eles mesmos acham correta.

Um extremo desta questão ocorreu quando uma mãe matou vários de seus filhos nos USA. Em seu programa clássico na CNN Larry King entrevistou três homens, maridos de três mulheres presas pelo mesmo crime. Todos deram o mesmo testemunho: as mulheres estavam em depressão pós-parto, tomando combinações de 2 ou 3 antidepressivos com benzodiazepínicos. O conceito na época era de que estas mulheres tinham depressão refratária ao tratamento, então os médicos davam cada vez mais antidepressivos. O conceito mais moderno é que estas depressões psicóticas são pioradas por antidepressivos e benzodiazepínicos.

Em 2008 tivemos 3 acidentes famosos de medicamentos, antes ainda de Michael Jackson. O rabino Henry Sobel e seu problema das gravatas em Palm Beach, relacionado com uso crônico de Rohypnol. O lutador Ryan Gracie e seu surto inexplicável em uma rua de São Paulo, seguido da morte em um distrito policial, após ser atendido pelo médico da família com remédios sedativos que incluíam um tarja preta que provavelmente ele havia interrompido. Seu surto pode ter sido uma abstinência. No Brasil as pessoas tomam estes remédios como se fossem aspirina, e solenemente ignoram que na caixinha está está escrito “Pode causar dependência química”. Na abstinência as pessoas podem ter insônia progressivamente pior, entrar em crise de ansiedade, surtar como um psicótico, e ter convulsões.

Heath Ledger, o australiano que já havia assombrado o mundo no filme dos cowboys gays, ganhou o 2º Oscar póstumo da história de Holywood pelo desempenho amedrontador, psicótico, um bipolar tipo I completamente fora de giro, como o Coringa de “Batman, o cavaleiro das trevas”. Heath tomava Xanax, o alprazolam, o Frontal. Nos últimos 15 dias de vida vários de seus amigos dizem que ele não conseguia dormir nada, o que indica que estava em abstinência do alprazolam, voando entre London, New York e o nordeste americano, lançando o Batman, terminando um novo filme. Quando finalmente chegou em casa fez uma mistura envolvendo remédios de dor, derivados de codeína, barbitúricos, e os tarja preta. Errou na dose e morreu, de uma forma muito parecida com Ryan Gracie, quieto, por provável parada respiratória medicamentosa. Não teve convulsão, derrame, infarto, não havia sinal de droga ilegal ou bebida. Neste caso, segundo Jack Nicholson, ele pode ter começado com Ambien, zolpidem, vendido no Brasil como Stilnox. Este medicamento, como outros indutores rápidos de sono, pode causar um período de amnésia se a pessoa não dormir. Sem registrar direito as coisas, se confundiu.

Portanto o problema é um pouco pior do que suicídios, e inclui mortes inesperadas como as aqui descritas.

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Dr Paulo Bittencourt

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