No fim do século passado uma paciente com esclerose múltipla estava recebendo pulsos de ciclofosfamida e metilprednisolona enquanto retirava a prednisona que seus médicos anteriores vinham utilizando sem sucesso para controlar uma paraparesia progressiva com vários anos de evolução. Ela teve um resultado milagroso quando, na Páscoa de 1977, o hospital se enganou e ela recebeu uma dose muito alta de ciclofosfamida.  Nos encontramos numa praça central de Curitiba há um mês, ela anda sem apoio, aos 63 anos de idade. Desde então outros 110 pacientes realizaram tratamentos semelhantes para várias doenças imunológicas, nem todos com o mesmo resultado. Os números são aproximados porque alguns repetiram o tratamento, porque os americanos descobriram que a dose inicial era baixa. No Brasil os pacientes desaparecem, interpretam seus próprios casos e vão procurar outras alternativas, estejam bem ou não.  A história é a seguinte.

Mãe de família cuidando de seu negócio com o marido, quase paraplégica com esclerose múltipla, era natural eu vir de minha casa de praia naquele belo sábado vê-la. Uma das razões para o esforço virar prazer a perua Volvo preta 850 SW T5. Saí cedinho, devagar na estrada vazia, os primeiros quilômetros em vilarejos à beira mar, com lombadas, a station grande, câmbio automático japonês. Acelerar e frear para as lombadas estraga os discos de freio. O barulho do motor era lindíssimo, fazia um tchhh mágico das válvulas. Nos próximos 15 km já embalava, uma reta, depois outra, 120, 130, 140km/h.  Em seguida a BR, estrada vazia, 150, 160, 170, pegando o jeito.

Como há muitos anos eu fazia, antes na motocicleta; criar certeza de que estava tudo nos conformes, com a estrada, comigo e com o automóvel, vazio, com o som quadrifônico. Retas e curvas bem abertas ainda no nível do mar a 150-180km/h e vem a subida da serra, 30-40km sinuosos, entre 90-130km/h. O câmbio japones é impressionante, engata as marchas para baixo na entrada das curvas de uma maneira espantosa.

A serra vai terminando, vem o planalto, a velocidade sobe. A velocidade máxima deste automóvel e de vários de rua é 250km/h, e trava. Neste dia, ainda embalando, ao passar lentamente pelo posto policial, fui bandeirado por um assustadíssimo guarda sem chapéu com um bilhete na mão.  Enquanto eu baixava o som e procurava os documentos ele me mostrava um pequeno fax escrito a mão “Volvo Branco” e o resto impresso “201”. Acho que era o impresso de um radar manual. “O senhor não pode dirigir nesta velocidade, é muito perigoso”. Eu fui lhe mostrando todos meus documentos, com toda a calma, inclusive os de médico. Aos poucos ele entendeu que era ele que estava alterado. O Volvo branco já deveria ter passado; eles não tinham a minha velocidade; era uma inflação de Volvos naquela manhã de Páscoa tão linda, e ele não tinha o direito de me impedir de ver meus pacientes. Após muita pechincha e negociação a ansiedade dele diminuiu, fui liberado. Ficou com meu cartão. Eventualmente um juiz me condenou a pagar uma multa em cestas básicas. Os espíritos devem saber que velocidade eu estava, pois na concentração total eu não estava olhando no velocímetro, claro. Bem mais que 201. Talvez o Volvo branco  ou alguma fada nórdica estivesse a 201.

Chegando ao hospital, a quimio que eu havia prescrito no internamento anterior já havia sido quase completamente infundida por ordem do parente médico da paciente. Ela queria ir logo para casa festejar a Páscoa; parei a infusão quando 80-90% tinha sido infundido. O hospital havia se enganado, e utilizado ampolas de 1000mg de ciclofosfamida no lugar das de 200 mg. Hematologistas prescreveram medidas de isolamento e salvamento de medula óssea, relacionados com transplantes de medula e ela se deu muito bem; 15 dias depois teve alta careca, com poucas outras complicações. E então um lento milagre começou a acontecer. Sua nota na escala de Kurtzke, que era 4 a 5, e suas lesões na ressonância cervical, começaram a melhorar; sua marcha melhorava, e também seus sinais piramidais e cerebelares. Em 2 ou 3 anos ela estava andando bem. Em 2003 ela parecia curada.

A questão é qual é o seu diagnóstico agora, em vista da resposta dos outros 60 pacientes que fizeram o tratamento? Porque ela se deu tão bem? Bom, próximo aos 60 anos de idade, ela usou menos de 20 gr de ciclofosfamida como único tratamento real durante seu tempo de vida. Anda sem ajuda. Trabalha o dia todo. Qualifica-se como escala de incapacidade de Kurtzke 1 ou 2, dependendo de como estiver seu exame clínico (ela abandonou o neurologista há muitos anos). Portanto, seu diagnóstico, após mais de 20 anos de esclerose múltipla documentada e do primeiro “pré-transplante” de Curitiba, é Esclerose Múltipla benigna, que estava piorada por cortisona prescrita pelo médico anterior, da UFPR, passando de fase remissões e recidivas para progressiva. Não custa lembrar que era Kurtzke 4 a 5 em 1997.

Esclerose múltipla benigna tornada esteróide-dependente, liberada deste círculo vicioso pela ciclofosfamida; EM de remissões e recidivas (RR) tornando-se progressiva crônica que melhorou para benigna com ciclofosfamida. Em qualquer possibilidade, esta forma de tratamento é superior à qualquer outra que apareceu através dos anos, como os interferons, glatiramer, natalizumab, azatioprina, ou esteróides em qualquer formato. Agora, nos últimos anos, estão aparecendo alguns anticorpos monoclonais que podem ser de eficácia semelhante, com custo e complicações muito, muito maiores.

Dr Paulo Bittencourt

este é um resumo de um capítulo do livro onde é contada toda a história e a base científica dos pré-transplantes: 

Pseudoquimera e Autoimunidade: Uma história da terapia das escleroses eBook Kindle  disponível no

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