Créditos de imagem: Greg Dunn, Philadelphia.

Talvez não pudesse haver melhor paradigma científico que o xadrez competitivo para testar substâncias que podem ser usadas como neuroestimulantes, como o metilfenidato e o modafinil. Um estudo foi realizado comparando estas substâncias com cafeína e placebo em departamentos de psiquiatria, oncologia, estudos sociais, educação, economia, pesquisa clínica, de cidades como Mainz, Alemanha e Estocolmo, Suécia. Foram avaliados 39 jogadores que receberam 200 mg de modafinil, 20 mg de metilfenidato e 200 mg de cafeína ou placebo em um design cruzado, controlado, duplo-cego, aprovado por comissão de ética. Os voluntários foram localizados por anúncios entre os jogadores alemães, pagos 400 libras esterlinas por sua participação, como é rotina em todo o mundo. Só no Brasil não se paga quem participa em pesquisa, uma regra indutora de corrupção, colocada na lei pelas indústrias farmacêuticas, pois assim só elas podem realizar estudos, embora na superfície pareça o contrário. Foram escolhidos jogadores de alto nível, que jogaram durante 15 minutos com o computador regulado pelo seu ELO ou DWZ, sistemas já bem estabelecidos naquele país para cada jogador. Além disso, realizaram vários testes neuropsicológicos e preencheram várias escalas de escore de seus sentimentos.

As três substâncias – cafeína, modafinil e metilfenidato – aumentaram de maneira estatisticamente significante o tempo de reflexão por jogo comparado com placebo. A consequência foi que os jogadores perderam mais jogos por estourar o tempo no relógio, um detalhe que talvez escape a quem não conheça campeonatos de xadrez ou suas regras. Mas é simples. Em um jogo de 15 minutos contra o computador, tanto o jogador como programa de computador tem tempos fixos e curtos para cada jogada.

Não ocorreu efeito dos tratamentos nos 3059 jogos. Quando foram retirados os jogos perdidos por tempo e o experimento foi controlado por tempo de jogo, sobraram 2876 jogos, nos quais houve melhor escore nos jogos nos quais foram utilizados metilfenidato e modafinil comparado com placebo. Quando considerados em conjunto com os testes neuropsicológicos, os investigadores concluíram que os estimulantes tem efeitos complexos em tarefas cognitivas. Em especial, os processos de decisão se tornam mais reflexivos. É possível que quando não sob pressão estes efeitos possam resultar em melhor performance. Porém, sob a pressão do tempo do jogo de xadrez, o efeito resultou em muito jogos cancelados.

Os autores fazem uma análise muito interessante dos resultados, comparando com literatura neuropsicológica complexa anterior, tentando procurar um efeito positivo do metilfenidato e do modafinil. O sentido da discussão é que estas drogas possam mudar pensadores rápidos e superficiais em pensadores mais profundos e um pouco mais lentos. Esta mudança cognitiva e comportamental pode ser de benefício para o jogo de xadrez, porém exige noção e treino. Jogadores costumam ser muito diferentes entre si na característica do problema do tempo.

Dr Paulo Bittencourt

 

Methylphenidate, modafinil, and caffeine for cognitive enhancement in chess: A double-blind, randomised controlled trial Franke, Gränsmark,Agricola, Schühle, ThiloRommel, Sebastian, Balló, Gorbulev, Gerdes, Frank, Ruckes, Tüscher, KlausLieb European Neuropharmacology 2017 ( na prensa)

http://dx.doi.org/10.1016/j.euroneuro.2017.01.006 0924-977X/& 2017

 

Artigo encaminhado por Jaime Sunye Neto, um dos 10 Grandes Mestres Internacionais de Xadrez do Brasil.