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O tratamento com Ritalina do TDAH, o transtorno do deficit de atenção e hiperatividade, é uma discussão epidêmica no mundo médico e educacional ocidental. Tipicamente, pais e professores aparecem com a ideia que crianças tem o problema de prestar atenção, são agitados, e devem melhorar com metilfenidato, a Ritalina, ou um de seus novos genéricos e similares. Na clínica, como médico, vejo coisas difíceis de acreditar. Esta semana, um menino de quase 8 anos, com tamanho de 6, perímetro cefálico de 4 anos, comportamento de psicose infantil, com óbvia dislexia e disgrafia, não lê nem escreve, já no segundo ano de uma escola pública. Tanto os pais quanto a escola acham que deveria tomar Ritalina. Microcefalia é um problema insolúvel, retardo mental com psicose e nanismo. Outra mãe já me levou uma criança para tomar Ritalina devido a dificuldade escolar decorrente de bullying, porque a família inteira, eles são muito baixinhos. A menina tem 1m40. Assim, o convênio e a secretaria de saúde não pagaram o GH, e ela também não quis, ou não pôde pagar. Já a consulta da Ritalina pode sair pelo plano, então ela tentou.

Assim funciona na mente dos brasileiros o paradigma do metilfenidato para crianças com dificuldade escolar. Embora este paradigma esteja montado há 50 anos, a primeira revisão sistemática da literatura médica sobre seus benefícios e malefícios foi publicada só muito recentemente. Os autores são um grupo de psiquiatras clínicos escandinavos.

Storebø OJ, Ramstad E, Krogh HB, Nilausen TD, Skoog M, Holmskov M, Rosendal S, Groth C, Magnusson FL, Moreira-Maia CR, Gillies D, Buch Rasmussen K, Gauci D, Zwi M, Kirubakaran R, Forsbøl B, Simonsen E, Gluud C. Cochrane Database Syst Rev. 2015 Nov 25; (11): CD009885. doi: 10.1002/14651858. CD009885. pub2. Methylphenidate for children and adolescents with attention deficit hyperactivity disorder.

Eles revisaram 6 bases de dados internacionais (CENTRAL, Ovid MEDLINE, EMBASE, CINAHL, PsycINFO, Conference Proceedings Citations Index), registros de estudos clínicos e listas de estudos dos fabricantes, e incluíram só estudos duplo-cegos de crianças de menos de 18 anos com QI acima de 70, sem sinais focais neurológicos; acharam 12000 participantes, com 5:1 de meninos, idade média de 9.7 anos, tempo médio de tratamento de 75 dias. Os estudos tinham alto risco de bias (desvio de opinião). Acharam que professores e pais pensaram haver melhora dos sintomas, sem efeitos colaterais sérios, porém com grande frequência de insônia (60% dos casos) e inapetência (266% maior).

Os autores concluíram que os resultados são de qualidade baixa, pela pouca significação estatística, pelo curto tempo de seguimento, e porque os efeitos colaterais tão frequentes inutilizaram a metodologia duplo-cega dos estudos. Todo mundo sabia quem estava tomando o que.
Os autores ficaram especialmente preocupados com o aspecto ético dos estudos, e recomendaram que os próximos estudos sejam realizados em adultos, pois as próprias crianças deveriam assinar seus consentimentos informados. Além disso, ressaltaram a necessidade de grandes estudos controlados de intervenções não farmacológicas.

Dr Paulo Bittencourt

leia sobre Ritalina (Português)

http://www.dimpna.com/wp-admin/post.php?post=1553&action=edit

inglês

Definitive review of effect of methylphenidate on attention deficit hyperactivity disorder

Image courtesy of Sartor | Dimpna
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