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Uma revisão da literatura médica séria no PubMed indica que a o metilfenidato foi introduzido científicamente com o nome comercial de Ritalin já como estimulante cognitivo em 1964, quando o Dr Leon Tetreault comparou seus efeitos com os da Dexedrina e do placebo em estudantes de Medicina, logo antes das finais orais, em Montreal. Um estudo com métodos científicos e estatística avançados, semelhantes à minha tese de doutorado, que seria feita em Londres 15 anos depois, quando os dois remédios já eram banidos e eu não consegui estudá-los. A Dexedrina, então disponível no mercado, é uma anfetamina. Os comprimidos foram preparados especialmente para serem iguais, e os estudo foi duplo-cego, ninguém sabia o que estava tomando. Nem os sujeitos da pesquisa nem os pesquisadores que aplicavam os questionários. No fim, a Dexedrina e a Ritalina provocaram insônia e inapetência, e aumentaram pouco as horas de estudo e a eficiência no estudo, sem chegar a ser estatisticamente significante. Os estudantes não recomendaram seu uso. O estudo foi publicado no Canadian Medical Association Journal, volume 91, páginas 61-67.

Foi também em Montreal, na McGill University e no Montreal Children’s Hospital, menos de 10 anos após o primeiro estudo em adultos, quando as anfetaminas já estavam banidas no mundo desenvolvido, que apareceu um nicho clínico para uma delas. Foi identificada a síndrome das crianças hiperativas, com impulsividade reflexa, dependentes, pouco controladas e pouco automatizadas quando comparadas com um grupo controle. Estes sintomas melhoraram com o metilfenidato, no mesmo estudo com o grupo controle, publicado no J Child Psychol Psychiatry em 1971 Jun;12(1):55-67 com o nome Cognitive styles in hyperactive children and the effect of methylphenidate pelos autores Campbell SB, Douglas VI, Morgenstern G. Ali estava inventado o paradigma das crianças hiperativas que viriam a tomar anfetaminas pelos próximos 50 anos.

Quem conhece a história das artes, por exemplo do rock, sabe que anfetaminas eram utilizadas livremente nos anos 1960, após terem sido sintetizadas pelos alemães antes da segunda guerra mundial, quando seu uso explodiu. Nos anos 1970 os americanos conseguiram finalmente controlar esta epidemia, que então passou para dentro da Medicina e dos sistemas de saúde. A informação é que nos anos 1980 a situação ainda ficou dentro de certos limites, talvez porque havia suprimento de fabricação ilegal, ou de cocaína.

Porém, nos anos 1990 houve um movimento para um grande excesso de uso de metil-fenidato, maior do que o esperado clinicamente, e os governos dos países desenvolvidos foram fechando cada vez mais os sistemas de controle sanitários e legais, principalmente nos países desenvolvidos. Assim o status legal da Ritalina internacionalmente é o mesmo dos EUA, ou seja Schedule II, droga de alto potencial de abuso porém que tem valor médico. No Canada, é ilegal a posse ou distribuição sem receita; no Reino Unido, Nova Zelândia, Austrália e Suécia a lei é cadeia para posse ou distribuição sem receita. Na França a lei já é mais solta, e no Brasil concurseiros conseguem comprar de uma hora para outra, mas realmente não sei como. Acredito que conseguem através da internet.
Desde os anos 1960 existem em torno de 3000 publicações no PubMed sobre metilfenidato. A maioria é positiva em crianças com deficit de atenção e hiperatividade. Outras são em adultos e jovens sem TDAH, tentando utilizar este tipo de medicação no lugar das drogas estimulantes que se tornaram ilegais, e aos poucos conseguiram amparo médico, por exemplo do FDA americano, em 2008.
Com o tempo surgiram genéricos da Ritalina, formulações de longa ação, e um de muito longa ação, o Concerta. Surgiram outros medicamentos com efeito semelhante, porém de outra natureza, como o modafinil, e a atomoxetina. Um bom artigo de revisão disponível na literatura aberta é de KS Bagot e Y Kaminer, Efficacy of stimulants for cognitive enhancement in non-attention deficit hyperactivity disorder youth: a systematic review; Addiction; 2014: 109: 547- 555. Eles concluem que modafinil pode melhorar o tempo de reação e o raciocínio lógico; metilfenidato atenção e novas tarefas; anfetamina melhora a memória. Porém não há consenso nem replicação dos resultados.
Dr Paulo Bittencourt

leia porque o uso da Ritalina em crianças pode ser contra a ética médica

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