Créditos de imagem: Greg Dunn. Philadelphia.

Existe um mito generalizado de que portadores de esclerose múltipla tem uma nuvem de sinais e sintomas cognitivos, envolvendo ânimo, disposição, memória, concentração e atenção, que são pessoas ineficientes, e que este estado de coisas piora com o tempo. Porém, certos pacientes não declinam com o tempo, e até resistem a considerável dano causado pela doença sem alteração cognitiva significante. Um grupo de neurocientistas de vários países aplicou os conceitos já bem aceitos internacionalmente de reserva cognitiva e de reserva cerebral para explicar como o crescimento cerebral e o enriquecimento cerebral atenuam o impacto negativo da carga de lesões da esclerose múltipla no estado cognitivo (Summowski et al, Neurology 2014 82, 1776-1783).

Nesta publicação eles oferecem as referências destes conceitos já aceitos na comunidade internacional, porque vem do estudo da educação em geral e das demências, como Alzheimer, que utilizam verbas muito grandes há 30 anos. Então os aplicam a um grupo de 40 portadores de esclerose múltipla em uma clínica em Belgrado, Sérvia. Medem em duas oportunidades, com 4.5 anos de espaço, a função cognitiva, progressão de doença em um aparelho de ressonância de 1,5 T, crescimento cerebral, enriquecimento intelectual, reserva cognitiva e reserva cerebral. Os pacientes eram 28 mulheres, sem crises ou necessidade de corticóides nas 4 semanas antes das avaliações; sem história psiquiátrica; com esclerose múltipla na forma de síndrome isolada (5); remissões e recidivas (17); secundária progressiva (6); e primária progressiva (12).

Na média, os 40 pacientes mostraram uma perda de 4.6% de volume cerebral nos quase 5 anos do estudo; 26,7% aumento de volume de lesões; o grau de incapacidade física foi de 3,5/10 para 4,5/10. A perda cognitiva, de memória e de capacidade verbal nos pacientes foi associada de maneira complexa com vários parâmetros na análise da neuroimagem, alguns com a atrofia cerebral, outros com a carga de lesões. Porém, houve uma relação inversa muito clara do enriquecimento intelectual com a perda cognitiva. Não houve perda cognitiva, de memória ou fluência verbal, nos pacientes que tinham alto grau de enriquecimento intelectual.

Enriquecimento intelectual é medido em parte pelo vocabulário porque é o produto de suas atividades, como educação, ocupação e leitura. O vocabulário é ligado à alfabetização, e pesquisa sobre tempo de vida indica que o vocabulário aos 53 anos de idade é ligado às experiências educacionais e profissionais independente da inteligência na infância (Summowski et al 2014).  Os autores concluem que seus resultados apoiam a Teoria de Reserva Cognitiva já bem estabelecida em outras áreas educacionais, profissionais e da Neurologia, no sentido de que os elementos associados ao Enriquecimento Intelectual protegem contra a perda cognitiva e de função verbal consequente mesmo a grande carga de lesões da esclerose múltipla, por um período maior que 4,7 anos.

Talvez até mais impressionante é o achado que o enriquecimento intelectual pode anular o efeito da doença de causar atrofia cerebral. Neste estudo foi utilizada uma medida de crescimento cerebral pela ressonância magnética. Os portadores de esclerose múltipla com pouco enriquecimento intelectual que tiveram atrofia cerebral, foram os que tiveram mais perda de eficiência cognitiva. Na verdade a relação entre estes marcadores de imagem, testes neuropsicológicos e a vida do dia a dia é mais complexa do que o objetivo deste pequeno artigo. Porém, a mensagem para os portadores de esclerose múltipla é semelhante aquela que passamos aos que nos procuram para prevenir doença de Alzheimer e outras manifestações de envelhecimento. Enriquecimento intelectual, assim como atividade física dentro das possibilidades de cada um, podem retardar em muito os efeitos mentais da progressão da esclerose múltipla.

Dr Paulo Bittencourt

 

Image courtesy of Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna
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