Créditos de imagem: Greg Dunnn.

É antiga a correlação que se faz entre as pessoas serem brilhantes e loucas. No vocabulário correto, terem doença bipolar ou serem portadores de esquizofrenia. No filme “Uma mente brilhante”, de 2002, que ganhou vários “Oscar”, Russel Crowe demonstra um espectro amplo de atuação, nem parece o mesmo homem de Gladiador. Mas o filme é escuro, não tem boas paisagens ou boa música, e é infantil no seu americanismo. Não se compara a Moulin Rouge, O Senhor dos Anéis, Gosford Park, todos da mesma época.

A história está baseada num erro de paradigma clínico. O Dr John Nash, matemático da teoria dos jogos cuja biografia dá origem ao filme, não pode ter sido esquizofrênico. Esquizofrenia é uma doença muito mais grave, intratável, e progressiva. Sua definição clássica está no nome dado há um mais de um século por Emil Kraepelin: “Demência precoce”. Segundo os DSMs, além das crises psicóticas, que duram muitos meses, ao longo dos anos os pacientes tem uma deterioração progressiva das funções intelectuais, perdem pontos na escala de inteligência, adquirem seqüelas perceptíveis ao exame neurológico, em ressonâncias e tomografias, tem anormalidades funcionais em eletroencefalogramas e SPECTs cerebrais; demonstram desorganização do pensamento e da linguagem; sua comunicação oral ou escrita fica dificultada. A maioria tem os chamados sintomas negativos, como a catatonia. A tendência atual é classificar pacientes que evoluem bem ao longo dos anos com os distúrbios do humor, junto com as depressões e distúrbios bipolares.

Na primeira metade do século XX a psiquiatria dos grandes asilos tratava os “psicóticos”, na prática unificando esquizofrênicos e “psicose maníaco-depressiva”. A psicanálise tratava os pacientes não hospitalares, sob o rótulo de “neuróticos”. O conceito de distúrbio bipolar do humor foi lentamente se separando de psicose esquizofrênica durante o século XX. Na medicina moderna existe uma obrigação de tentar o tratamento de distúrbio bipolar, porque pode ter excelente resultado.

Muitos outros gênios tiveram o mesmo problema. Alexandre Magno e Gengis Khan, por exemplo.“Cadernos de Nijinski” é o diário de Vaslav Nijinski, o bailarino de origem polonesa, nascido em Kiev, que explodiu nos Ballets Russes aos 16 anos de idade. Agitado, repetitivo, hipersexual desde pelo menos a pré-adolescência, tornou-se amante do coreógrafo, Dhiagilev, encantou a Europa e as Américas, casou-se e teve uma filha. Em uma década deixou marcas profundas e definitivas, não há dúvida que é o mais estupendo bailarino da história. Pouco antes dos 30 anos de idade sua agitação piorou, e passou o resto da vida internado, até morrer em 1950 em Londres. Nos Cadernos, mostra a mesma lucidez rápida, paranóica e megalomaníaca que Nash demonstra nos seu prolongado surto do início do filme, quando desvendou em vidros de janelas a equação que lhe daria o Prêmio Nobel. Ser o melhor bailarino da história ou desvendar equações não é compatível com a incapacidade de um surto esquizofrênico.

No caso de Nijisnki será necessário pesquisar os arquivos dos hospitais onde esteve, mas talvez ele, diferente de Nash, tenha se deteriorado através dos anos, e, portanto, tenha sido portador de esquizofrenia. Com mais de 40 anos de doença Nash esteve presente em cerimônias de premiação extremamente complexas. Nijinski e Nash tiveram problemas externos graves, inclusive sexuais, que deram um colorido assustador à doença. Hoje em dia Nijinski seria considerado vítima de pedofilia. Não surpreende que tenha descompensado psicologicamente logo após casar.

Uma Mente Brilhante é uma história de sucesso após adversidade, o cerne da maneira protestante anglo-saxã de encarar a vida. Para quem esqueceu, há várias décadas um livro brilhante deu origem a um filme realmente bom sobre o sistema psiquiátrico americano: “One flew over the cuckoo´s nest”, ou “Um estranho no ninho” na nossa versão. Com Jack Nicholson. Mostrando pretos e índios sendo lobotomizados.

Uma Mente Brilhante é uma historinha de ninar. Mas dá oportunidade de observar a variação da reação ao diagnóstico psiquiátrico no meio intelectual protestante, sem dúvida muito diferente do que seria entre nós, católicos. Dá para imaginar como um maluco com esquizofrenia seria tratado em um departamento competitivo da USP, da UNICAMP, UFPR, UFSC, ou qualquer de nossas universidades? Eu até conheço alguns exemplos, acompanhei alguns casos através dos anos.

 

Artigo adaptado a partir de outro publicado em Quando a cabeça dá problema (2ª edição, 2007, Design Editora, Jaraguá do Sul, esgotado e 3ª edição, ebook, www.amazon.com), de Paulo Rogério Bittencourt.

 

Image courtesy of Dr. Paulo Bittencourt | Dimpna
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