Créditos de imagem: CDC Gathanny.

Atualizando em 2 de abril este artigo sobre o que eu sempre chamei de epidemia de febre amarela, escrito inicialmente em 15 de janeiro, ocorreram novidades. Como previ, do Sudeste se espalhou para o Nordeste, Centro-Oeste e Sul, cobrindo uma região maior do que vários países europeus, e se transformou em um “disaster”, utilizando um termo frequente de outro mentiroso contumaz, Donald Trump. O cenário que ninguém queria. Nunca fez nenhum sentido chamar este fenômeno de um surto, em nenhuma língua. A novidade é que houve uma fraude de informação. A epidemia começou no Rio de Janeiro. Conforme noticiou o Jornal da Globo da manhã da sexta feira através da entrevista direta de um profissional do laboratório de Belém do Pará, os macacos mortos enviados para lá em outubro tinham febre amarela. São macacos da floresta do Jardim Botânico e da Gávea. O fato da contra-prova da Fio-Cruz ser negativo vários meses depois é muito, mas muito suspeito, especialmente com o respeitável profissional de Belém dando testemunho pessoal no Jornal da Globo dia 17 de março cedo, e o resultado da Fio-Cruz sendo anunciado meses depois assim, ao léu.

A magnitude desta informação é chocante. Das montanhas do Rio, Petrópolis, Teresópolis, Juiz de Fora, para as montanhas do Leste de Minas é um salto de macaco com mosquito. Não é surpresa que começou lá em dezembro. As mesmas  desculpas confusas que secretários e sub-secretários estão fazendo com a coitada da família que tem vários membros morrendo agora em Casimiro de Abreu está sendo feita com os macacos, duvidando do diagnóstico, coisa que nunca se faz em Medicina. Só quando o chefe não é médico com CRM registrado. O médico faz e atua no diagnóstico operacional mais grave, seja em uma situação clínica ou de saúde pública. O contrário é crime.

O rápido crescimento de casos de febre amarela relatado na televisão aberta brasileira no leste de Minas Gerais, evoluindo para estados vizinhos sem contenção epidemiológica apropriada, lembrou o surto de microcefalia no nordeste. Lá o problema desapareceu, indicando que não foi relacionado somente com o virus  zika. Outro fator auto-limitado deve ter entrado em ação.

A febre amarela estava quase extinta no Brasil. Leia artigo vizinho a este neste site sobre a história da febre amarela. Um novo surto pode ter sido introduzido por um visitante, talvez de Angola, por exemplo uma de tantas pessoas envolvidas com os projetos de construção que empresas de engenharia brasileira lá tem. A transmissão do flavivirus é feita pelo mesmo Aedes da dengue e de outras viroses que estas regiões do país estão enfrentando. Esta epidemia talvez nem seja silvestre.

Ninguém ainda checou o vírus. A fraude é tão grave que nenhum virologista se manifestou. Eu não ficaria surpreso se já tiverem ocorrido casos clínicos no Rio de Janeiro e ninguém ficou sabendo. De onde veio o vírus destes macacos de uma zona tão nobre da cidade?

As opiniões expressas na mídia sobre febre amarela silvestre e urbana não refletem nossa situação. Com o Aedes espalhado por tudo, a população em festa, pensando em estética e carnaval. O alarme deveria ter sido ligado em outubro, e certamente desde o Natal, quando o número de casos clínicos e a curva ascendente da incidência já caracterizava tecnicamente uma epidemia. Qualquer livro, enciclopédia ou dicionário confirma que epidemia é um surto que progride e se espalha. Um rápido e inesperado aumento no número de casos de uma doença transmissível em um espaço geográfico delimitado, por exemplo para 15 casos por 100000 habitantes – https://pt.wikipedia.org/wiki/Epidemia.

Nos primeiros dias de fevereiro chegamos próximo a 1000 casos clínicos notificados e das 100 mortes, em estados das regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, uma superfície geográfica maior do que todos os países europeus exceto a Rússia. Em março, perdemos a conta, pois são casos demais, muitos sem diagnóstico ou sem comunicação às autoridades, na bagunça completa do nosso sistema público de saúde, e na falta de comunicação do sistema privado. No fim de março, chegamos a 15o mortes e 450 casos comprovados, números nunca vistos na África ou no Brasil, talvez em nenhuma epidemia. Nossa africanização, algo que previ quando fui um Professor Visitante de Neurologia na Universidade do Zambia em Lusaka em 2005, está aí. Angola e Mozambique estão nesta situação. Outros países vizinhos d América do sul tem um ou outro caso, nós devemos estar passando de alguns milhares de pessoas que tiveram febre com icterícia e nem souberam bem o que tiveram.

Uma resposta radical dos órgãos envolvidos poderia ter controlado um surto e impedido uma epidemia de febre amarela destas proporções, envolvendo grandes áreas de estados centrais do país, próximo a áreas urbanas. Agora, cada um de nós deve procurar seu médico de confiança, se ele tiver este tipo de conhecimento, e verificar o que deve fazer sobre sua própria saúde e seu estado de vacinação. Já não temos mais vacinas para todos que precisem. A reação à curva ascendente da incidência de casos foi muito mais tarde do que deveria ter sido. Alguéns cometeram crime contra a humanidade.

Dr Paulo Bittencourt

http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,virus-da-febre-amarela-nao-esta-circulando-na-capital-do-rio-diz-secretario-da-saude,70001702627

http://g1.globo.com/bahia/noticia/2017/01/bahia-tem-caso-confirmado-de-febre-amarela-diz-ministerio-da-saude.html

Jornal Nacional, dia 4.02.2017

https://wwwnc.cdc.gov/travel/notices/alert/yellow-fever-brazil

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2017/03/20/macacos-mortos-na-cidade-do-rio-nao-tinham-febre-amarela-mostram-exames.htm

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2017/03/febre-amarela-ja-tem-144-mortes-confirmadas-no-pais.html

 

 

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