A primeira grande experiência divina de Joana D’Arc foi provavelmente em 1424, quando ela já tinha o hábito de fugir para rezar na Capela de Nossa Senhora de Bermont. Seu relato é simples e objetivo, como parece ter sido sua personalidade: ‘Eu estava no meu décimo terceiro ano quando Deus mandou uma voz para me guiar. Primeiro fiquei assustada. A voz veio na hora do almoço, no verão, no jardim do meu pai. Eu tinha jejuado no dia anterior. Ouvi a voz do meu lado direito, na direção da igreja. Eu raramente ouço a voz sem ver uma luz. A luz sempre aparece do mesmo lado do qual eu ouço a voz.” Com a freqüente repetição dos episódios, aos poucos, seu medo foi desaparecendo, e a mensagem inicial de que ela deveria continuar sendo uma boa moça passou a ser mais complexa e direta. Passou a ser visitada por 3 espíritos: São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarete, sempre em companhia de uma luz divina. Eles estavam sempre bem vestidos com lindas coroas na cabeça e um cheiro agradável. As visões ocorriam várias vezes ao dia, em especial quando Joana D’Arc estava na floresta, e lhe traziam um bem estar. Ela tocava os santos, portanto seu contato envolvia 4 dos 5 sentidos. Após 5 anos com estes episódios em relativo segredo, ela começou a perder o medo e a seguir suas instruções, ao mesmo tempo em que seu humor passou a ficar cada vez mais exaltado no tempo em que não estava dentro dos episódios. A mensagem aos poucos lhe disse que se vestisse de homem e libertasse a França para o Rei Charles poder assumir seu trono.

Eventualmente Joana D’Arc arquitetou um bom plano, conquistou alguns aliados, fugiu de casa sem se despedir de nenhum dos seus parentes ou amigos, e conseguiu ser recebida pelo Dauphin. Este, ela conquistou com uma confidência, lhe contou um segredo pessoal dele, que disse ter ouvido de seus santos. Biógrafos acreditam que ela levantou a vexatória questão de que o Dauphin não fosse de direito o Rei, e sim o bastardo. Depois que começou sua missão, foi orientada pelas vozes em todos os seus passos, de relações pessoais, políticas, militares, e tudo está documentado nos arquivos dos julgamentos, tanto o da Inquisição, que a condenou, como no que a reabilitou parcialmente, 25 anos depois.

Quando finalmente Joana D’Arc foi presa pelos ingleses e seus aliados franceses, ocorreu um de seus feitos mais surpreendentes, um salto de 20 metros de altura da torre do castelo de Beaurevoir, da qual ela saiu sem maiores problemas, ou pelo menos, sem sentir maiores problemas. Uma das explicações é que ela tenha se machucado, mas que estivesse em tal estado elevado de excitação mental que nem tivesse se incomodado com algumas pequenas fraturas e dores musculares e articulares. Logo os ingleses se livraram da “Pucelle”: a Inquisição francesa a julgou, coordenada por Pierre Cauchon, Bispo de Beauvais, um queridinho da Universidade de Paris, com cobertura política e militar inglesa, e anuência covarde do Dauphin a quem ela tinha servido tão fielmente. Ao fim, voltou atrás em sua teimosia e assinou um documento aceitando que suas visões não eram verdade, mas os ingleses organizaram uma armadilha. Talvez tenha sido violentada durante uma noite. Pela manhã, foi deixada sem roupas, obrigada a vestir novamente roupas de homens, o que configurou uma reincidência em um de seus crimes heréticos; desistiu de resistir, e foi queimada.

Dr Paulo Bittencourt

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leia mais em Fora da casinha, uma análise histórica da loucura, 2a edição disponível através de dimpna@dimpna.com

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