Teria sido Joana D’Arc levada adiante em sua aventura tão inexplicável por vozes e um excesso de disposição típicos de epilepsia do lobo temporal? A interpretação das vozes sem dúvida é complexa. Em conjunto com alucinações visuais e sensoriais como ela mesma relatou em seu julgamento, enxergando cabeças ricamente coroadas, vozes lhe dando ordens, odores agradáveis em profusão, e a sensação de ter tocado estas visões, o conjunto já levou autoridades a diagnosticar tuberculose ou tumores cerebrais. Se algo de muito errado existia em seu cérebro, com certeza hoje em dia pode ser localizado nos lobos temporais. A doença mais comum desta parte do cérebro, que pode perfeitamente ocorrer em crises, ou seja em episódios com início e fim, chama-se epilepsia do lobo temporal. No caso de Joana, seria do lobo temporal esquerdo. Nas pessoas que tem esta forma de epilepsia, as crises deste tipo começam exatamente nesta idade, na maior parte dos casos em crianças que até então eram normais, exceto por uma história de convulsões febris na primeira infância, algo que sem dúvida passaria desapercebido em uma época como a em que Joana viveu.

Do muito que já se escreveu sobre Joana D’Arc, talvez uma observação seja relevante, a de que de onde vieram suas vozes e visões não é importante, mas sim a coragem com que ela respondeu. Este excesso de disposição que faz uma menina enfrentar uma guerra, depois os homens de seu país e ser queimada viva, também é típica da epilepsia do lobo temporal, na qual as pessoas têm um distúrbio de tipo bipolar entre as crises, a chamada psicose interictal. Alguns epilépticos tem surtos psicóticos entre as crises, o que levou os epileptólogos, predecessores dos neurologistas e psiquiatras do século XIX, a observarem este fenômeno com cuidado, e a perceberem que esta psicose melhorava, ou até desaparecia quando eles tinham uma próxima convulsão grande. A partir destas observações foi inventado o tratamento com eletrochoque, ou eletroconvulsoterapia, até hoje muito utilizado em psiquiatria, de maneira civilizada e eficiente.

Se existe a possibilidade de um diagnóstico médico no caso de Joana D’Arc, o mais provável hoje em dia seria epilepsia do lobo temporal esquerdo com psicose interictal. A religiosidade, a lucidez e o excesso de disposição, a excelente memória, as visões, vozes e luzes sempre vindo do lado direito. Na verdade, para confirmar um diagnóstico histórico, só falta um relato de alguma convulsão, que não existe. Porém, convulsões são notoriamente retiradas de histórias de pessoas, até mesmo hoje em dia. Outra possibilidade diagnóstica é doença bipolar, com certeza não esquizofrenia; começou muito cedo e teve evolução benigna demais. Suas funções cognitivas estavam 100% preservadas durante seu julgamento. Enxaqueca não tem um quadro psiquiátrico tão florido. Doenças mais graves, como tuberculomas cerebrais ou tumores malignos, são impossíveis, diagnósticos levantados no início do século XX porque eram as doenças mais diagnosticadas naquela época.

Epilepsia de lobo temporal é usualmente causada por uma esclerose do hipocampo, que fica na parte mais interna, medial, desta parte do cérebro. Aparece bem em eletroencefalogramas e em ressonâncias magnéticas feitas com uma metodologia especial. É a única forma de epilepsia que associa crises com visões, vozes, odores, e ainda claramente ligada a uma psicose interictal florida. Bem como era o caso de Joana D’Arc. Muitos destes pacientes têm também pseudocrises, que vem a ser crises produzidas por sua mente, que imitam as crises epilépticas.

Parece claro que não existem traços de doença psicológica, algo que pudesse levar a stress pós-traumático. Como disse uma de suas biógrafas, estas suposições médicas não são tão importantes quanto o fato em si. Joana D’Arc existiu; fez o que fez, mudou o curso de uma guerra. Sua vida terminou da maneira que terminou. Uma criança. Uma menina.

Dr Paulo Bittencourt

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