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Humanista mais citado do mundo segundo o Times Higher Education em 2009, 10º entre os pensadores franceses após Descartes, Voltaire, Rousseau, Comte, Michelet, Tocqueville, Sartre, de Beauvoir e Levi-Strauss, Michel Foucault é considerado o mais inovador, influente e contemporâneo. Apesar de muito crítico do estado da cultura francesa, esta avaliação britânica comprova a saúde das instituições francesas no meio do século XX, que salvaram a vida de um homem comparável a John Lennon em impacto cultural. Porém, Michel Foucault era muito mais selvagem; viveu como um Freddie Mercury.

Paul-Michel nasceu em 15.10.1926 em Poitiers, filho de Paul Foucault, eminente cirurgião que o esperava como herdeiro e colega. A educação primária foi uma mistura de êxitos e mediocridades até se destacar no Colégio Jesuíta Saint-Stanislaus. Poitiers era parte da França de Vichy, logo ocupada pela Alemanha. Foucault rejeitou o pai a ponto de abandonar seu nome. Foi apoiado pela mãe e pela estrutura da nobreza provinciana católica, muito mais forte no interior francês do que podemos imaginar. O irmão seguiu os passos do pai. O fato da educação não sofrer interrupção com a Guerra dá uma ideia da posição da família. Poitiers estava do lado dos alemães até o fim. Foi bombardeada em 1944 pelos americanos. Após a Guerra ingressou na École Normale Supérieure, tradicional entrada a uma carreira em Humanidades.

Foi na École Normale que Paul-Michel surtou, tentou se suicidar várias vezes, e cometeu auto-mutilação; tratou-se com psicanálise, um diploma de Filósofo (1948) e outro de Psicólogo (1949), este novo na Sorbonne; devorou os clássicos, chegou a Marx, Hegel, Heidegger, Nietzche e Freud. Na literatura, Kafka, Faulkner e Jean Genet. Começou o embate com a homossexualidade, e desenvolveu o padrão de um companheiro social e uma vida paralela selvagem. Trabalhou em clínicas e hospitais psiquiátricos e deu cursos de Psicologia Patológica, sob a supervisão de Louis Althusser, psicanalista lacaniano, o eterno mentor. Obteve em 1952 o título de Psicólogo Patológico. Era fã do teste de Rorschach e de um psicólogo indicado pela mãe, Ludwig Binzwanger. Chegou a ser membro do Partido Comunista. Althusser o induziu a ingressar, mas logo se desiludiu. Muito jovem, já amava a violência, Goya, o macabro, o sub-mundo. Em torno dos 25 anos de idade teve epifanias com o teatro de Beckett e textos de Nietzche; e escreveu seu primeiro livro: “Maladie mentale e personalité”, refletindo uma ruptura do horizonte marxista, fenomenologista e existencialista que dominou sua geração.

Aos 30 anos virou diplomata. Universidade de Uppsala para estudar e Maison de France para o salário, com Sten Lindroth, historiador da ciência, de supervisor, que se recusou a validar o doutorado, pelo excesso de generalizações especulativas e nenhuma história. Michel foucault colecionava multas de velocidade em um novo Jaguar, e o companheiro Barraqué abandonou a “vertigem da loucura”.  Mudou-se para o Centro Francês da Universidade de Varsóvia, no triste pós-guerra soviético; acabou removido por envolvimentos homossexuais escandalosos. Entre 1958 e 1960 ensinou os mesmos cursos de Filosofia no Instituto Francês de Hamburgo, frequentando o Distrito da Luz Vermelha à noite, na companhia de travestis, e completou 5 anos fora de Paris.

O doutorado saiu em Paris em 1961, com 1000 páginas e duas teses. A principal foi “Antropologia do ponto de vista pragmático de Kant”. A complementar foi “Loucura da razão: história da loucura na Idade Clássica”. Um dos revisores, resumindo a opinião dos outros, disse que o título seria dado porque havia mérito, mas não se tratava de um trabalho de história convencional; existiam generalizações e alegorias sem base em evidências, como havia dito Lindroth. Enquanto isso o autor era aceito pela comunidade acadêmica e por um segmento crescente do público que viria a gostar do pequeno livro que foi publicado quase simultaneamente em inglês e francês em 1964, com o título Histoire de la Folie ou Madness and Civilization. Michel Foucault era, desde 1960, professor de Psicologia, depois de Filosofia em Clermont-Ferrand. Lá continuou publicando pequenos livros de literatura e sequelas de seu doutorado.

Embora seus livros tivessem e viessem a ter História e Arqueologia nos títulos, Michel Foucault nunca deixou de ser considerado um filósofo, exclusivamente. Jamais foi um historiador. A História científica das ideias de Isaiah Berlin já existia desde Vico, alguns séculos antes, não havia porque Foucault delirar e inventar uma história e uma arqueologia da mente. Quando Lacan começou a dar seus seminários na Ecole Pratiques dês Hautes Etudes em Paris os dois se aproximaram e Miller, mentor de Foucault a vida toda, casou com Judith, filha de Lacan. Ele jamais saiu deste âmbito. Sua “história” e sua “arqueologia” se restringem à mente francesa. Em Histoire de la Folie, ignorou toda a história antiga da loucura magistralmente escrita por Robert Burton em Anatomy of Melancholy, de 1651.

A explicação é simples. Nem ele nem seus contemporâneos dominavam o inglês. Era outro mundo para eles. Como veremos mais abaixo, aos poucos Michel Foucault aprende inglês e muda de perspectiva. Em 1966 participa da publicação das obras completas de Nietzche em francês pela Gallimard e publica Le Mots e les Choses, com grande sucesso. Entra no grupo dos intelectuais estruturalistas com Levi-Strauss, Barthes, Lacan, que queriam eliminar o existencialismo e humanismo; eram denunciados como burgueses pelos marxistas como Simone de Beauvoir e Sartre. Em 1966 mudou-se para Tunis para acompanhar o amante Defert, filósofo. Voltou a Paris a tempo de participar das revoltas estudantis em plena rua. Os protestos de 1968 levaram ao estabelecimento de uma universidade experimental em Vincennes, arredores de Paris, onde Foucault e Defert foram acomodados na filosofia e sociologia. Virou um centro de revolta ultra-esquerdista, com cursos hiper-matriculados, sem exames, ministros e imprensa revoltados, brigas com polícia nas ruas, até 1970, quando Foucault foi eleito para o College de France.

Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt

Fontes Guardian 2015, wikipedia em francês, espanhol e inglês (Biografias de James Miller e Didier Eribon); Fora da Casinha, Uma análise histórica da loucura através dos séculos; Jaraguá do Sul, Design Editora, pp176, 2009  (disponível em amazon.com) e 2ª Ed revisada 2010 pp. 300 (disponível em dimpna.com); Caio Liudvik na Revista Cult, As contracondutas de Foucault no Brasil, UOL, 2014); Progressive Geographies blog,2015

 

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