Créditos de imagem: The cowboy hat photo from the Eriborn book of the Berkeley lectures.

A partir de 1970, aos 44 anos de idade, Michel Foucault conseguiu plena estabilidade ao se tornar um dos 52 Professeurs do Collége de France, no Quartier Latin em frente à Sorbonne. Estabelecido em 1530 por François I, sua função foi providenciar livre forum para as humanidades. Em uma lista dos membros ilustres consigo reconhecer, das áreas científicas, Laennec e Claude Bernard. Logo após sua fundação foi chamado Collége Royal e Imperial, tornando-se de France após a Revolução Francesa. Permanece uma instituição talvez hoje em dia única em sua característica monárquica. De seus membros se espera dedicação à livre ciência. Michel Foucault passou a ter como obrigação 12 aulas por ano, abertas ao público, um evento da vida intelectual parisiense.

Com o poder, a liberdade, e a atenção da posição no Collége de France, formou-se a “Tribo foucaultiana”, grupo de estudo que produzia pequenas e maiores publicações, enquanto o chefe passou a fazer tournées de palestras por Japão, Canadá, Brasil, EUA. Um grupo de trabalho sobre prisões e a pena de morte daria origem ao que muitos acham seu melhor livro, Surveiller et punir: naissance de la prison.

Envolveu-se em campanhas anti-racistas e a favor de imigrantes. Em 1976 com a publicação do volume I de Histoire de la sexualité, radicalizou. Rompeu com a editora Gallimard. Passou a participar de protestos de rua contra a ditadura espanhola, soviéticos, vietnamitas, e a favor dos aiatolás no Irã. Foi preso, feriu-se, apareceu na mídia, escreveu em jornais; 20 anos após Histoire de la folie descobriu e passou a respeitar o Oriente; encontrou Khomeini e foi ao Japão praticar Zen Budismo. Seus colegas receberam muito mal estas iniciativas.

Em 1974 participou de um debate em rede de televisão, no International Philosopher’s Project do Colégio Técnico de Eindhoven. O moderador é trilíngue, os debatedores são bilíngues, mas Foucault fala francês e Chomsky inglês, direto sem tradução. Michel Foucault expõe seus princípios de construcionismo social que vai contra a ideia de Chomsky de faculdades humanas inatas. Ambos em plena forma intelectual e física, emerge o paradoxo entre o niilismo centro-europeu e o otimismo científico.

No Collége de France os escritos de Michel Foucault se tornaram complexos, feitos a muitas mãos. Sua última fascinação foi a busca da verdade nos oito séculos cobrindo gregos, romanos e cristãos. O texto está em inglês, “Fearless speech”, Semiotext, 2001, 128pp. Contém a transcrição de 6 palestras proferidas em Berkeley no outono de 1983. O assunto é o de suas aulas anuais em Paris, e dos cursos em Leuven, Vermont, Dartmouth. Uma análise foi feita como Book Review por Stefano Franchi da University of Auckland na revista Essays in Philosophy (A Biannual Journal. Vol. 5 No. 2, June 2004). O Foucault tardio é fiel a seus métodos e conceitos, mas amplia suas análises cronológica e tematicamente. Passou de estudar o período moderno e pré-moderno para toda a história do Ocidente, e do exame do poder e dominação para a análise mais complexa do “Gouvernement de soi et dês autres”. Busca nas tragédias de Eurípides e na maneira de viver dos Cínicos a “estética da existência”.

É óbvio que os colegas e as conexões familiares protegeram o católico Paul-Michel, a impressionante capacidade de trabalho e maravilhosa inteligência. A rápida transformação em celebridade de rua o levou a ser o humanista mais citado no mundo até 20 anos depois da morte. Porém sua contribuição foi como a Psicanálise. Sedutora pelo discurso, mas uma fogueira, sem base teórica, científica ou acadêmica.

Após o debate televisivo, Chomsky assustou-se com sua posição de não existir um senso inato moral de justiça geral, que vem a ser a posição típica psicanalista e marxista. Disse que nunca viu alguém tão desprovido de sentimentos, que Foucault parecia ser de alguma outra espécie. Mario Vargas-Llosa disse que embora ele tenha dado maior cidadania a algumas experiências excêntricas, principalmente sexuais, sua crítica radical da autoridade foi ruim para os sistemas educacionais. Não existe menção internacional ao seu trabalho em História. O que Foucault fez foi Filosofia, dentro da Psicanálise.

A atividade contra o poder estabelecido foi a missão de Michel Foucaul nos últimos anos de vida, até falecer de AIDS no início da epidemia em 1984, aos 57 anos de idade. Apoiou o Solidariedade na Polônia; tornou-se professor visitante em Vermont, Los Angeles, Berkeley e New York. Muito provavelmento contraiu o HIV em orgias sadomasoquistas em casas de banho de São Francisco, que ele mesmo descreveu em detalhe. Poucos anos depois a epidemia chegaria ao Brasil. Familiarizado com a literatura médica, atendi vários dos primeiros casos do Brasil (Bittencourt PRM e Sandoval PRM. AIDS, estigma e ética médica. Arquivos do Conselho Regional de Medicina do Paraná 20: 39 – 41, 1989). Sua metodologia era psicanalítica, lacaniana. Althusser e Miller, seus mentores e companheiros de trabalho, eram psicanalista e genro de Lacan.

Este renovado interesse por Michel Foucault foi motivado por perceber que o novo Reitor e o curso de História da UFPR o tem como mentor máximo. O Reitor tem o cume de seu currículo acadêmico, onde História e Direito entram em contato, na História das Ideias. Sua bíblia é L’ Archeologie Du Savoir, publicada pelas Editions Gallimard. Porém, esta é uma miragem, tem “arqueologia” no título. José Guilherme Merquior, na Fontana Modern Masters, concluiu que a obra de Foucault nunca deixou de ser uma hipótese. A Psicanálise não é uma especialidade reconhecida em Medicina ou Psicologia. Certamente um curso de História não pode ser construídos sobre uma fantasia doente. É uma peculiaridade de nossa dependência linguística, ranço do trabalhismo e nacionalismo. Senadores e deputados que teimam em pronunciar impitchman, porque teimam que a origem da palavra é francesa, talvez pensando que possam mudar a língua inglesa.

De certa maneira, estamos em um replay de uma situação que se desenrolou na juventude de Edésio Passos, há 40 anos atrás. Na época já estávamos décadas atrasados por ditaduras sequenciais, sempre reinventando a roda. Após visitar países próximos na Europa e norte da África, Michel Foucault veio ao Departamento de Filosofia da Universidade Francesa de Ultramar, a USP, em 1965, antes de se tornar uma celebridade. Claude Levi-Strauss havia participado da fundação da USP em 1934. Gerard Lebrun estava em São Paulo e fez os contatos. Foucault retornaria em 1973 ao Departamento de Letras e Artes da PUC- RJ e em 1974 ao Instituto de Medicina Social da UERJ. Em 1975 voltaria à USP para um curso sobre poder, mas sua visita seria interrompida pela morte de Vladimir Herzog. Em 1976 visitaria a UNICAMP. A instalação de uma fantasia filosófica francofônica na disciplina de História é um atraso secular nas Ciências Humanas de nossa Universidade. Será isso mesmo? Ou esta é alguma cortina de fumaça?

Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt

Fontes Guardian 2015, wikipedia em francês, espanhol e inglês (Biografias de James Miller e Didier Eribon); Fora da Casinha, Uma análise histórica da loucura através dos séculos; Jaraguá do Sul, Design Editora, pp176, 2009  (disponível em amazon.com) e 2ª Ed revisada 2010 pp. 300 (disponível em dimpna.com); Caio Liudvik na Revista Cult, As contracondutas de Foucault no Brasil, UOL, 2014); Progressive Geographies blog,2015

 

Image courtesy of Sartor | Dimpna
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