Os distúrbios da linguagem era área de caloroso debate entre os centros emergentes europeus de Neurologia e Psiquiatria. Suas fronteiras de conquista estavam na correlação entre função e localização anatômica, e a mais nobre delas, a responsável pelos distúrbios da linguagem, estava em debate caloroso entre os grandes centros europeus. A área de Wernicke, no final do giro temporal superior esquerdo, no fim da fissura de Sylvius, onde o lobo temporal encontra o parietal e o ocipital, é uma das áreas de associação com o córtex mais nobre do ser humano. Ali, segundo Wernicke definiu e até os anos 1970 se acreditou, se processa a mais nobre função do ser humano, o entendimento da palavra falada, a compreensão do discurso.

Karl (Carl) Wernicke (1848-1905) foi um anatomista, neuropsiquiatra e neuropatologista. Nasceu na Prússia, tornou-se médico em Breslau, estagiou com Meynert e Westphal, e trabalhou em Berlin, Breslau e Halle, entre postos acadêmicos e clínica privada neuropsiquiátrica. Faleceu aos 57 anos após as complicações de um acidente de bicicleta na floresta das montanhas de Thüringer Wald, o que indica que era um praticante de mountain bike, que seria inventado um século depois nas Montanhas Rochosas dos EUA.

Paul Broca estudava os distúrbios da linguagem em Paris; tinha descrito a região responsável pela produção da palavra falada, pela articulação do discurso, do que em inglês é chamado speech. Broca tinha vencido longa batalha em uma sociedade de antropologia em 1861, com a autópsia de um paciente do Hopital Bicêtre que só conseguia falar a palavra TAN, e tinha este apelido. A lesão estava no parte posterior do giro frontal inferior. Outras 12 autópsias comprovaram sua hipótese e a região se tornou conhecida como Área de Broca.

Karl Wernicke percebeu que pacientes com lesões posteriores tinham uma dificuldade de compreensão da palavra. Logo publicou seus resultados (Wernicke C. Der aphasische Symptomenkomplex. Eine psychologische Studie auf anatomischer Basis; Breslau, M. Crohn und Weigert, 1874. – O complexo de sintomas afásicos: um estudo psicológico a partir de uma base anatômica).

E assim as coisas permaneceram por mais de um século. A afasia de Broca, lesão de área de Broca, afasia expressiva, é a síndrome de pacientes que tem o distúrbio da linguagem que todos esperam, ou seja, não falam, ou falam pouco. Porém, Karl Wernicke havia descoberto uma síndrome que continua até hoje deixando estupefatos familiares e mesmo médicos não especialistas. Pacientes que por um capricho anatômico tem uma lesão um pouco mais posterior, no fim da fissura de Sylvius. O resultado é um quadro clínico muito pouco lógico. Uma afasia fluente. As pessoas falam, por vezes falam muito. Mas não entendem o que se fala para elas. Provavelmente nem entendem o que elas mesmas falam. Não compreendem o que está escrito. Afasia de Wernicke, afasia receptiva, ou afasia de compreensão. Um dos distúrbios da linguagem de mais difícil compreensão para qualquer pessoa.

O conhecimento neurológico, anatômico e funcional permaneceu estático durante um século por razões éticas, políticas e sociais. O fim do século XIX viu o eclipse do poder alemão e francês, ao mesmo tempo em que não eram mais disponíveis cadáveres para os anatomistas como havia ocorrido nos dois séculos anteriores. Logo vieram as duas grandes guerras mundiais, o holocausto nazista, as declarações dos direitos humanos, e estudos anatômicos em cadáveres foram sendo proscritos. A psicanálise não ajudou o estudo dos distúrbios da linguagem. A neurociência demorou a estabelecer novos paradigmas, que só vieram com a neuroimagem funcional, já no século XXI. Ainda nos anos 1970 estavam sendo estudados escritos de 100 anos antes porque não haviam novidades (Marie P. On aphasia in general and agraphia in particular according to the teaching of Professor Charcot: reprinted from Le Progres Medical, series 2,  1888; 7:81-84. In Maries’s papers on Speech Disorders, New York, Hafner, 1971).

O cenário mudou com o advento das neurocirurgias funcionais com estimulação cortical, do PET-scan e ressonância funcional, principalmente esta última, com custo menor. Finalmente, quase 150 anos depois, as conclusões dos anatomistas podem ser avaliadas científicamente, e a conclusão é a mesma de outros já da época de Wernicke (JR Binder. The Wernicke area. Neurology 2015; 85: 2170-2175).

A área de Wernicke deve ser mantida como um nome, pois é amplamente utilizada em livros, enciclopédias analógicas e digitais, como na Wikipedia em inglês, de onde tiramos parte das informações aqui contidas. Porém, na maneira de entendimento atual sua função não é de compreensão da palavra, compreensão do discurso. A área de Wernicke faz parte do sistema de produção do discurso. Ela executa “phonological retrieval”, uma função que pode ser traduzida como recuperação fonológica, ou recuperação de fonemas, um estágio anterior à articulação das palavras. Para os cientistas dos distúrbios da linguagem, a representação fonológica ou imagem mental dos sons que compõem a palavra precisa ser ativada, precisa ser recuperada, escolhida. Esta é a função desta área. Quando estamos lendo um texto ou respondendo uma pergunta e precisamos escolher entre, por exemplo, caia, laia, praia, ou lua, pua, rua, é o que faz a área de Wernicke. Portanto, faz parte da produção da fala, do discurso.

O resultado de uma lesão ali é chamado de Parafasia fonêmica. A pessoa fala errado, mas a entende o que se fala para ela ou o que lê. Fala na mesma velocidade que o usual. Na verdade depende muito das lesões cerebrais, pois é incomum que pacientes tenham lesões isoladas que permitam estas conclusões anatômicas assim tão específicas. Este detalhe da ciência dos distúrbios da linguagem, é claro, escapava a Wernicke e seus contemporâneos. Foi com o progresso da neurociência que detalhes assim foram sendo especificados para serem correlacionados com neuroimagem e neurocirurgia.

A compreensão do discurso, hoje se sabe, inicia com uma função auditiva dos giros temporais superiores dois hemisférios, em uma região anterior à de Wernicke. Em seguida ocorre a compreensão semântica, em uma região mais ampla do hemisfério dominante, incluindo regiões mesiais temporais, parietais e pré-frontais, mas não a região de Wernicke (Binder 2015).

Portanto, Karl Wernicke estava um pouco errado, por um detalhe. O processamento da linguagem é um pouco mais complexo, tem mais estágios do que ele imaginava. As afasias não são somente de expressão, de recepção e de condução. Existem outros tipos, e a sua região, agora firmemente estabelecida na cultura neuroanatômica, na verdade tem uma função de produção, e não de entendimento da linguagem falada.

Prof. Dr. Paulo Bittencourt, PhD, MTABN, FAAN

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