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O telefonema do editor do Iátrico sobre os Rolling Stones causou um acesso de riso, após meu amigo me enrolar uns 30 segundos antes de dizer: escreva por que você gosta mais dos Stones do que dos Beatles. Precisa coragem. No caso, escrevi uma ficção histórica contemporânea, como Tom Wolfe em “A fogueira das vaidades”.

Pré-adolescente em Curitiba no meio dos anos 60, eu tinha sido acordeonista, sabia ler música, gostava de música caipira desde a infância no norte pioneiro, mas o chique era bossa nova. Então explodiram a Jovem Guarda e a adolescência. No nosso grupo, muitos estudavam no Interamericano ou na Cultura Inglêsa. Por intercâmbio, dois foram passar o verão americano nos USA. Trouxeram uma coleção de Lps. Entre eles, Rolling Stones, Beatles e Doors. O ritmo dos Stones era melhor que o resto. Só Doors se comparava. Aqui, o povo ouvia os Beatles antigos, da época do ié-ié-ié, tipo Renato e seus Blue Caps. Os momentos mágicos dos Beatles, como Hey Jude, e principalmente o Disco Branco, ficaram bloqueados com a caretice generalizada do fim dos anos 60 na América Latina. A emoção verdadeira do rock, da guitarra sexual, rítmica, hipnótica, poderosa, que motivava as moças da high-school, estava já marcada com quem foi transgressor desde o início: Rolling Stones.

Aquele grupo de amigos que ouviu a pequena coleção de Lps continuou se reunindo, um especialista em Beatles, outro em música folclórica; sempre toquei rock rápido melódico; até em Pink Floyd buscava as baladas. Ouvir Stones é a essência da palavra “rock”, balançar o tronco naquele ritmo da guitarra do Keith. Dá para colocar um metrônomo, é como o baixo do acordeon, os botões na mão esquerda. Jagger e Richards nunca tiveram um produtor como Brian Epstein ou um arranjador como George Martin. Os Rolling Stones não tiveram um fim melancólico, como Elvis. O ritmo sempre foi identificado com o blues negro do delta do Mississipi. Numa das mais clássicas séries de concertos da história do rock, em novembro de 1969 no Madison Square Garden, os Rolling Stones já tiveram a companhia de BB King e Tina Turner no palco, Jimi Hendrix e Janis Joplin na platéia. Ao fim, em Honky Tonk Woman, consta que o edifício balançava com a guitarra de Keith.

Talvez uma amostra do ritmo dos Stones seja Midnight Rambler, com mais de 9 minutos de guitarra nervosa no meio da gravação do Garden. Já tentei inúmeras vezes, em idades diferentes, acompanhar o movimento do braço direito. A cãimbra é inevitável. Há décadas eles não tocam músicas que tocam fogo na platéia, como Gimme Shelter. Várias vezes durante o show engatam um rock que embala todos durante longos minutos. Não economizam potência: cada música é mais alta, mesmo em lugares como o Maracanã.

Sexo, drogas e rock and roll. Esta equação dá Rolling Stones. Como eu não conhecia nenhum dos 3, porque a preferência imediata? Deve ser uma reação química, disse Charlie Watts a um repórter ainda nos anos 60 sobre a loucura das adolescentes. Mas que reação poderia atingir tantos espécimes da raça, persistindo até a senescência? O primeiro ingrediente devem ser os hormônios. Os Beatles de início foram uma boy-band, e sempre tocaram uma música mais rebuscada. Consta que tocaram Hey Jude mais de 100 vezes até obter a versão perfeita. George sempre foi suave, e Paul bom-moço. Já os Stones foram rock básico desde sempre. O segundo é a transgressão, a emoção verdadeira, límpida. O terceiro minha origem acordeonista caipira, que deve ter a ver com a genética eslava da polka. O quarto é o grupo. Acordeonistas tocam em conjuntos, embora sejam uma pequena orquestra.

Como grupo os Rolling Stones são únicos, objeto de respeito e admiração crescentes. Sir Mick, Keith Pirata do Caribe, Charlie o gentleman, Ron Wood, o companheiro fiel. Feministas, na prática. Donos de seu destino. Assisti os Stones ao vivo pouco, por razões históricas; a primeira vez foi Ron Wood e Keith Richards e uma penca de gente de primeira no supergrupo chamado New Barbarians no Knebworth Festival, próximo a Londres em 1979, no meio de um lamaçal. Depois quando já haviam ressurgido, no Maracanã, Voodoo Lounge Tour em 1995. Com certeza um dos 5 ou 6 melhores shows que jamais vi. Mas nunca deixaram minhas playlists, há quase 50 anos.

Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt

Artigo escrito por solicitação do Dr João Manuel Cardoso Martins (editor): Iátrico (CRMPR) 26:31-32, 2010)

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