Curitiba parou na tarde de segunda-feira 14 de dezembro para 22 mil pessoas se ocuparem com David Gilmour,  o mentor do Pink Floyd, um homem de 69 anos com calça e camiseta pretos, cabelos e barba brancos e mãos de trabalhador. Uma audiência que chamava sua guitarra de Black Strat cantou as músicas em capela, e teve a impressão que David Gilmour estava gostando do que estava fazendo, um pouco mais do que só o dever profissional. Em Shine on You Crazy Diamond e Comfortably Numb a Pedreira delirou. A impressão foi que todo mundo viajou mesmo.

David Gilmour tem uma posição na realeza da arte do século XX e XXI que pouca gente tem noção. Há alguns anos ele vendeu uma coleção de aviões, inclusive alguns caças a jato, porque a manutenção tinha deixado de ser um hobby para virar um empreendimento complexo. Só o cash que continua entrando do Dark Side of the Moon, um dos discos que mais vendeu da história da música, é uma barbaridade. Comparado com os Beatles e os Stones, levou poucas invertidas financeiras e femininas, e não perdeu direitos autorais. Muito diferente deles e de outros como Dylan, ele e seus 8 filhos continuam morando onde sempre moraram, frequentam as escolas e  ambientes que sempre frequentaram, na periferia norte e leste da classe média alta esquerdista de Londres e Cambridge. Um de seus filhos foi recentemente preso por participar de arruaças, e outra conheceu o saxofonista curitibano de 20 anos que toca agora em sua banda. Paul Mc Cartney e John Lennon nunca voltaram à Liverpool portuária trabalhadora.

Os shows de David Gilmour sempre honram Syd Barrett, seu vizinho, que já era um adolescente estranho e pirou de vez com uma mistura de anfetaminas e LSD no início dos anos 60. Porém, deixou o grupo e a música, que foi até The Wall. Roger Waters então sequestrou a idéia psicótica original de Barrett e a transformou em uma idéia pessoal neurótica. Este é um raciocínio complexo, que exige calma e conhecimento de psicopatologia. Vamos repetir, Roger Waters tentou transferir para um delírio de si mesmo, neurótico, aquilo que antes era um delírio universal, psicótico, de Syd Barrett e do Pink Floyd. The Wall foi uma opera rock como Tommy, do The Who, tinha sido uma década antes. Nada original.

David Gilmour uniu-se a Richard Wright e David Mason, tecladista e baterista, assumiu de vez a liderança do Pink Floyd, e não permitiu. Houve um longo embate judicial, a partir de 1981; Gilmour, Wright, Mason e a mãe de Barrett ganharam, apesar da força que Waters tinha adquirido com The Wall, o disco e as apresentações ao vivo.

Waters fez pouco da loucura de Barrett e de seus colegas. David Gilmour, novato no grupo, percebeu que a idéia era mágica, e até hoje fatura milhões, sei lá, bilhões de libras com esta ruptura multisensorial da arte dos anos 60. Syd Barrett e o Floyd deram este salto antes dos Beatles no Album Branco e no Sargent Pepper’s. Só Jerry Garcia e o Grateful Dead na California praticaram um rock semelhante. Brian Jones, dos Stones, fez um disco assim e morreu lá mesmo, como Jimi Hendrix, que mal chegou a produzir.

David Gilmour aparou as coisas e está aí até hoje. Coloca João Melo, um menino curitibano, para tocar o sax tão proeminente na arquitetura  musical do Floyd, e homenageia a mãe dele em sua cidade natal. Além de vivo, rico, Gilmour está saudável, usa roupas simples, suas guitarras são velhas, não faz as unhas, e seus cabelos e barba são feitos na esquina.

Na verdade, o Floyd sempre primou pelo conteúdo. Paul Mc Cartney e David Bowie já tocaram na Pedreira. Não lembro do impacto ter sido tão forte. Inclusive, Gilmour já teve Bowie como vocalista, e já foi guitarrista de Paul, e agora tem Phil Manzanera, outro mestre, em sua banda. Se fizermos as contas, logo veremos que este show da Pedreira era financeiramente dispensável. Porém, artesãos praticam sua arte.

A primeira parte do show, ainda dia claro, foi aquecimento. O segundo ato, com lua e alguma garoa, foi de matar. Um clássico atrás do outro. Principalmente a guitarra, claro, mas a banda toda, as luzes, uma hora e meia que ficam na história de cada uma das 22 mil pessoas que ali estavam. E, principalmente, a seriedade deste homem que emoldurou e honrou a loucura de seu colega de infância.

Paulo Rogério Bittencourt

Image courtesy of Sartor | Dimpna
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